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Brasil e Reino Unido sofrem com variantes, mas britânicos souberam fazer lockdown e vacinação

Enquanto número de mortes explode, campanha nacional de imunização brasileira tem escassez de doses e utiliza imunizante com eficácia menor

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2021 | 05h00

Em menos de duas semanas, a variante de Manaus provocou o colapso do sistema de saúde. Somos o segundo país a enfrentar um pico de casos e mortes causados por uma nova variante. Primeiro foi no Reino Unido, onde a variante B.1.1.7 foi identificada no final de 2020, e provocou uma explosão de casos e óbitos. Estamos vivendo o que a Inglaterra viveu três meses atrás.

No Reino Unido, o lockdown foi decretado no dia 4 de janeiro, o mesmo dia em que o primeiro cidadão inglês foi vacinado, antes que o número de mortes tivesse iniciado sua subida vertiginosa. Os ingleses previram a subida das mortes, pois o número de casos explodira duas semanas antes. O número de mortes aumentou vertiginosamente por um mês, até o final de janeiro. Por mais de um mês, o sistema de saúde beirou o colapso durante o mais rigoroso lockdown imposto por qualquer país.

No Brasil e no Reino Unido, a campanha de vacinação estava começando quando os casos e mortes explodiram. Mas as semelhanças entre os dois países acabam aqui. Na Inglaterra o governo decidiu que o lockdown seria o último e duraria até que 100% da população de risco tivesse sido vacinada. São os 21,8 milhões de habitantes acima de 50 anos de idade, 38% da população. 

Em meados de 2020, a Inglaterra havia fechado contrato com as empresas de vacina para adquirir 4 vezes o número de doses necessárias para vacinar a população e foi o primeiro país a aprovar a vacina da Pfizer e AstraZeneca. Assim, a vacinação foi iniciada com um estoque razoável de doses. Além disso, por utilizar vacinas de alta eficácia, os ingleses decidiram dar a 1ª dose a um número grande de pessoas e deixar a segunda dose para mais tarde. 

O resultado é que o Reino Unido já vacinou 36% da população e está começando a estudar como relaxar o lockdown, à medida que ministra a 2ª dose à população de risco. Lá, foram feitos estudos que comprovam que espaçar as doses nas suas vacinas não prejudica a eficácia e que as vacinas usadas geram anticorpos capazes de neutralizar a variante B.1.1.7.

Aqui no Brasil a situação é muito diferente. Essa não será a última onda nem o último lockdown que teremos de aguentar. Como não compramos vacinas em meados de 2020, simplesmente não temos doses suficientes para vacinar o grupo de risco durante os próximos meses.

Vamos ser forçados a relaxar o distanciamento muito antes de termos vacinado uma fração significativa da população. E então o ciclo se repetirá: novas infecções e mais mortes. O único cenário em que isso não acontece é se o surto atual atingir proporções gigantescas o suficiente para induzir a imunidade de rebanho no Brasil, o que, com as novas variedades, só será atingida quando 80 a 85% da população for infectada. Espero que isso não ocorra.

O Brasil optou em 2020 por não comprar doses de vacina, mas fechou dois contratos de transferência de tecnologia: do Butantan com a Sinovac e da Fiocruz com a AstraZeneca. Por esses contratos, todas as vacinas usadas no Brasil durante o 1º semestre de 2021 seriam produzidas no exterior, envasadas e embaladas no Brasil. Isso daria tempo para o Butantan e a Fiocruz construírem suas fábricas de vacina.

O Butantan tem conseguido envasar um grande número de doses, apesar dos atrasos no envio do IFA (Insumo Farmacológico Ativo) pela China. A Fiocruz tem tido problemas em fazer suas máquinas de envase funcionarem de maneira correta e ainda não assinou o acordo de transferência de tecnologia com a AstraZeneca. 

Ambos os institutos já anunciaram que as fábricas para produção nacional não ficarão prontas a tempo para produzir no 2º semestre. Assim, ainda não temos contratos para as doses necessárias para depois de junho/julho de 2021.

O resultado dessas decisões é que aproximadamente 9 em cada 10 vacinas aplicadas no Brasil até agora são as Coronavac/Butantan, a vacina com a menor eficácia de todas as disponíveis. E uma em cada 10 são da AstraZeneca, que juntamente com a Pfizer, tem licença definitiva de uso no Brasil.

A Coronavac é uma vacina desconhecida para a comunidade científica. Os resultados da fase 3 dos testes clínicos ainda não foram publicados e a única publicação científica sobre ela é o estudo da fase 2 e um trabalho submetido para publicação que indica que os anticorpos gerados por ela não são capazes de inativar o vírus da variante de Manaus (esses dados foram contestados por Dimas Covas, diretor do Butantan, mas os dados que embasam sua contestação não foram divulgados).

A Coronavac pode ser uma ótima vacina ou pode ser inócua caso a eficácia contra a cepa de Manaus seja muito menor que os 50% obtidos contra a cepa original do coronavírus. O que sabemos com certeza é que ela é muito segura e, portanto, não devemos evitar de tomar a Coronavac. Eu mesmo tomei e fiquei feliz em ter tomado as duas doses. Uma semana após cada dose tive uma leve diarreia que durou dois dias e cansaço. 

Fiquei curioso se esses eram efeitos colaterais leves da Coronavac. Em situações normais, eu iria consultar o trabalho científico da fase 3. Como ele não existe tive de procurar no meu computador a apresentação que a Anvisa fez no dia da aprovação. 

Foi lá que encontrei que diarreia e cansaço estão entre os efeitos colaterais mais frequentes. Nessa mesma apresentação, a Anvisa declara que o Butantan não entregou nenhum dado sobre a imunogenicidade da Coronavac. E a Anvisa escreve com todas as letras “O único resultado apresentado não foi considerado adequado para a avaliação e conclusão da imunogenicidade”. A Anvisa ainda lista nove grupos de dados que o Butantan ficou devendo. O prazo de entrega era 28 de fevereiro e agora foi adiado para o fim de abril.

A conclusão é que estamos com o sistema de saúde em colapso. Dependemos, para sair dessa crise, do cumprimento das regras de distanciamento social difíceis de manter e de uma vacinação que ocorre a conta-gotas, utilizando uma vacina segura, de baixa eficácia, e cujas propriedades ainda são desconhecidas. Não é um cenário animador.

Mais informações: Neutralization of SARS-CoV-2 lineage B.1.1.7 pseudovirus by BNT162b2 vaccine–elicited human sera. Science vol 371 pag. 1152 2021

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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