Brasil entra para o clube do alto desenvolvimento humano

Ingresso, porém, não se deve apenas a melhorias reais nos campos avaliados, mas a revisões de estatísticas

Ligia Formenti e Lisandra Paraguassu, do Estadão,

27 de novembro de 2007 | 09h59

Mais de 20 anos depois da Argentina, que obteve a marca ainda nos anos 80, o Brasil entra para o clube dos países considerados de alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo relatório divulgado nesta terça-feira, 27, pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (Pnud). Segundo a BBC Brasil, porém, a ascensão do País se deve não só a melhorias na qualidade de vida, mas à revisão de alguns indicadores brasileiros. Veja também:Relatório da ONU pede corte 80% na emissão de CO2 até 2050Relatório da ONU defende etanol brasileiroEm artigo, Lula defende 'ação nacional para desafio global'IDH mostra que estamos no caminho certo, diz ministroPara especialista, ranking da ONU adota 'rótulos artificiais'A evolução dos países  De acordo com o relatório da ONU, o Brasil atingiu o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,800, em uma escala de 0 a 1. Países com índice inferior a 0,800 são considerados de "médio desenvolvimento humano", categoria na qual o Brasil figurava desde 1990, quando o PNUD começou a divulgar o ranking. Os dados do relatório divulgado nesta terça-feira são referentes a 2005. No relatório do ano passado, de 2004, o IDH do Brasil foi de 0,798, já com os dados revisados. Apesar de ter tido uma pontuação maior, o País caiu uma posição no ranking e agora ocupa o 70º lugar, o último entre os de nações com "alto desenvolvimento".  Além do Brasil, países como Rússia, Macedônia, Albânia e Belarus também ingressaram no rol dos países de "alto desenvolvimento humano" nesta edição do ranking, que neste ano foi liderado pela Islândia, com IDH de 0,968.  Revisão O IDH é um índice usado pela ONU para medir o desempenho dos países em três áreas: saúde, educação e padrão de vida. O índice é composto por estatísticas de expectativa de vida, alfabetização adulta, quantidade de alunos na escola e na universidade e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita. O Brasil subiu não só devido a melhoras reais nos campos avaliados pelo IDH, mas também em função de revisões de estatísticas nos bancos de dados da Unicef e do Banco Mundial - órgãos que fornecem os números para o Pnud, normalmente baseados em dados produzidos pelos próprios países. Por exemplo, uma recente revisão de metodologia do IBGE alterou para cima o crescimento do PIB brasileiro em 2005. Em vez de 2,9%, o IBGE declarou que a economia do Brasil cresceu 3,2% naquele ano. Revisões estatísticas também revelaram que os padrões de educação e expectativa de vida no Brasil aumentaram em 2005. A expectativa de vida média subiu de 70,8 anos, no relatório anterior (71,5 no número revisado), para 71,7 anos em 2005. A revisão foi feita em 62 países, a partir do ajuste do impacto da Aids na longevidade das populações, menor do que se pensava anteriormente. Desempenho tímido Apesar das melhorias, o ingresso do País no grupo de nações com alto índice de desenvolvimento ocorre de forma tardia e com desempenho ainda bastante tímido. Uma rápida olhada nos indicadores mostra o quanto a atuação do País está aquém dos vizinhos Chile, Uruguai, da Argentina e também do México. "Caso queira se aproximar de outros países, o Brasil precisa adotar uma agenda específica ", avalia o assessor especial para Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, economista Flávio Comim.O assessor se vale de cinco indicadores para mostrar o longo caminho a percorrer. A começar pela desigualdade social. Em 2004, a faixa 20% mais rica de brasileiros ganhava 21,8 vezes a mais do que o grupo 20% mais pobre. No México, tal índice é expressivamente menor: 20% mais ricos ganham 12,8 vezes mais do que os 20% mais pobres. No Uruguai, 10,2 vezes e no Chile, 15,7.  "O copo do Brasil ainda está meio vazio. Há muito o que ser feito para se aproximar da Argentina, que desde a década de 80 está entre o grupo de alto desenvolvimento humano", completa. O número de mortes registradas entre mulheres durante ou logo depois do parto, é o segundo exemplo dado pelo economista. No Brasil, são registradas 110 mortes por cada 100 mil habitantes. Na Argentina, são 77 por 100 mil. O México apresenta um índice ainda menor: 60 por 100 mil, o que representa quase metade da marca brasileira. A mortalidade entre menores de cinco anos também é significativamente maior no Brasil. São 33 mortes por mil nascidos vivos. Na Argentina, são 18 mortes por mil e no Uruguai, 15 - menos da metade da taxa brasileira. Na área de saneamento, o exemplo brasileiro também deixa a desejar. Em 2004, a rede de esgoto atendia 75% da população. No Uruguai, a rede já atendia 100% da população e na Argentina, 91%. Com abastecimento de água a situação não é diferente. Na Argentina, 96% da população tem acesso à água encanada. No Chile, 95% enquanto no Uruguai, 100%. O Brasil oferece abastecimento para 90% de sua população, o mesmo que o Nepal, o 142º colocado no ranking. "O que se vê são cinco áreas em que o Brasil precisa ainda melhorar de forma significativa. Em alguns quesitos, o País apresenta taxas parecidas com as africanas", completou.  'Conceito amplo' O próprio UNDP reconhece que o IDH não é suficiente para avaliar o nível de desenvolvimento humano de um país. "O conceito de desenvolvimento humano é amplo demais para ser capturado pelo IDH", diz o website do programa. Um dos objetivos do índice, ainda de acordo com o UNDP, é "chamar atenção dos formuladores de políticas públicas, da mídia e das ONGS... para questões humanas", tirando um pouco o foco de indicadores meramente econômicos. Neste ano, o tema do relatório da ONU sobre o IDH é o aquecimento global e seus efeitos sobre o desenvolvimento. No site oficial do índice (http://hdr.undp.org/en/), a partir da manhã desta terça-feira, o visitante pode calcular, online, sua "pegada de carbono" pessoal - a marca que seu estilo de vida deixa no clima da Terra.

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