Brasil faz primeiro transplante de células do pâncreas

Médicos e pesquisadores brasileiros anunciaram nesta quinta-feira a realização do primeiro transplante de células do pâncreas no País. O procedimento, apesar de ainda experimental, é encarado como uma hipótese de cura para pacientes diabéticos.As células são as responsáveis pela produção de insulina, deficiente em quem sofre de diabete. O transplante foi realizado na última segunda-feira e a paciente já teve alta do hospital. O que mais impressiona é a simplicidade do procedimento, que dura cerca de 35 minutos.Com uma injeção, as células - cujo agrupamento é conhecido como ilhotas de Langerhans - são direcionadas para o fígado do paciente. Segundo o coordenador do projeto, o endocrinologista Freddy Goldberg Eliaschewitz, mesmo sendo originárias do pâncreas, as células transplantadas se adaptam ao fígado e passam a produzir insulina.O trabalho maior, no entanto, ocorre há mais de cinco anos no laboratório do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). É lá que 12 pesquisadores aprimoraram o trabalho de isolamento das ilhotas, provenientes de pâncreas de cadáveres."O importante é que esse procedimento conseguiu estabelecer a ponte entre a pesquisa e a clínica médica", diz Eliaschewitz. As pesquisas têm principalmente o apoio da Fapesp. O transplante foi realizado no Hospital Israelita Albert Einstein, que bancou essa etapa do projeto.Apenas pouco mais de 100 procedimentos semelhantes já foram feitos em todo o mundo. Os médicos são cautelosos em dizer que esta foi apenas a primeira fase do procedimento, que não permite ainda declarar o sucesso do procedimento. "Injetamos a primeira dose das ilhotas, ou seja, um terço do que ela precisa. Depois de dois meses, se tudo correr bem, faremos a segunda."Mesmo assim, Telma Mércia Rosário de Almeida já reduziu em um terço as injeções de insulina diárias. A administradora de empresas, desde que soube dos experimentos para o transplante de ilhotas, sonhava em ser a primeira paciente. "Minha vida agora é uma alegria. Eu vivia na cama, não tinha disposição para nada", conta a baiana, de 45 anos, que desde os 19 sofre de diabete tipo 1.No último ano, ela já não podia mais trabalhar e tinha crises de hipoglicemia súbitas e desapercebidas, que já a levaram ao estado de coma. "Durante a noite, eu acordava de duas em duas horas para medir a taxa de glicose, com medo de ter uma crise enquanto dormia."É importante salientar que a experiência é indicada apenas para pacientes cuja diabete é uma ameaça iminente à vida. Isso porque, como em qualquer transplante, é preciso tomar drogas imunossupressoras, que impedem a rejeição das novas estruturas, mas têm sérios efeitos colaterais.Segundo Eliaschewitz, ainda não é possível saber quando a técnica será testada em outro paciente. "É o primeiro passo de uma longa estrada", diz o coordenador de pesquisa do Einstein, Carlos Alberto Moreira.Além do isolamento, o laboratório da USP pesquisa ainda uma maneira de encapsular as ilhotas para que elas não sofram rejeição quando transplantadas. Sem o risco dos imunossupressores, o procedimento poderia ser feito em um número maior de pacientes diabéticos.

Agencia Estado,

05 de dezembro de 2002 | 20h53

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