Brasil ganha centro de pesquisa de nanotecnologia

Até o fim deste semestre, ou no máximo no começo do próximo, deve entrar em funcionamento o Centro Nacional de Referência em Nanotecnologia. Ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), o centro terá a dupla missão de estimular a pesquisa acadêmica, ao mesmo tempo em que promoverá o uso das novas tecnologias pela iniciativa privada.Como se trata de uma ciência emergente, o governo tem a esperança de que o investimento em nanotecnologia renda bem e o Brasil consiga acompanhar o ritmo de desenvolvimento dos outros países. Afinal, começam todos mais ou menos da mesma marca, sem as décadas de descompasso que marcam outras áreas científicas. É claro que alguns, como os Estados Unidos, começam um pouco à frente, com pesquisas avançadas. "Mesmo com recursos limitados, podemos chegar rapidamente à fronteira do conhecimento em alguns setores", diz Cylon Gonçalves da Silva, que coordena o projeto.As apostas são altas. O coordenador prevê investimentos entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões nos próximos dez anos, pondo dinheiro nos laboratórios e também ajudando empresas nascentes ou estabelecidas a aplicar a tecnologia. "É perfeitamente cabível, em dez anos, superar a marca de comercialização de US$ 1 bilhão em produtos brasileiros com nanotecnologia", diz.PotencialEncarregado dos estudos preliminares, o físico Silva, ex-diretor geral da Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron (ABTLuS), aponta alguns segmentos com potencial para o País. Entre eles, os catalisadores. "A reação catalítica é fundamental em praticamente qualquer processo na indústria química e na petroquímica", diz.Pesquisadores universitários brasileiros teriam feito um catalisador com nanopartículas de metais exóticos, com diâmetro entre 5 a 10 bilionésimos de metro cada. Ao contrário dos catalisadores normais, este não é envenenado pela reação química, o que lhe garante uma durabilidade tremenda e, conseqüentemente, grande redução de custos.Há uma área, porém, em que dificilmente os pesquisadores brasileiros conseguirão acompanhar o ritmo dos colegas estrangeiros: a nanoeletrônica. Não por falta de empenho. O problema é que a indústria microeletrônica inexiste no País. Como a nanotecnologia deriva da microtecnologia, para alcançar o nível de conhecimento externo seria preciso investir fortunas. "Se tivéssemos US$ 20 bilhões, US$ 30 bilhões para desenvolver a indústria microeletrônica, daria", resume o coordenador. A menos que o governo considere a área estratégica, adote uma política orientada para isso e faça investimentos dessa ordem, será jogar dinheiro fora. "É preciso entender que é coisa de gente grande", diz Silva. "Não tenho o menor interesse em microeletrônica."Mas tem enorme interesse em química, onde é possível fazer algo concreto. Ou em agricultura, onde os pesquisadores brasileiros podem achar fórmulas para regular o estado do solo. "Temos uma agroindústria poderosa, que se beneficiaria de avanços nessa área. Esses não são problemas com os quais os Estados Unidos, Japão ou Europa vão se importar."Com a vantagem de que pesquisas para a agroindústria poderiam alavancar desenvolvimentos paralelos em outros segmentos, como a nanoeletrônica, com a produção, por exemplo, de sensores. "Temos de nos concentrar em áreas onde o Brasil tem condições de competir", diz Silva. "Precisamos concentrar esforços se queremos obter resultados valiosos."PesquisadoresCylon Gonçalves da Silva calcula que existam atualmente no Brasil entre 50 e 100 pesquisadores de excelente nível, trabalhando com nanotecnologia. Desses, 20 seriam capazes de liderar estudos originais e competitivos, acelerando o processo de desenvolvimento científico e inovação industrial.A nanociência e a nanotecnologia estudam fenômenos que ocorrem em nanoescala. Um nanômetro (nm) equivale a um bilionésimo de metro. Algo com tamanho de 10 nm é mil vezes mais fino que o diâmetro de um fio de cabelo. Uma bactéria tem 1000 nm. Trabalha-se aí ao nível molecular, átomo por átomo. Nessas dimensões, os materiais exibem propriedades e interagem em fenômenos físicos, químicos e biológicos diferentes dos observados em escala normal. Os cientistas procuram justamente entender, e dominar, essas diferenças.

Agencia Estado,

20 de janeiro de 2002 | 21h25

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