Brasil prepara rede de observatórios do campo magnético

Investimento de R$ 670 mil prevê mais três observatórios fixos e dez itinerantes no território nacional

Carlos Orsi, estadao.com.br

05 de dezembro de 2007 | 16h08

Gerado por correntes elétricas no núcleo do planeta, o campo magnético terrestre protege a vida na superfície - e os astronautas em órbita - das tempestades do Sol, tem papel fundamental nas telecomunicações, na navegação e, embora dois de seus efeitos mais notáveis se manifestem sobre a América do Sul, ainda não é suficientemente bem estudado nesta parte do mundo. O que pode começar a mudar, a partir do anúncio de um investimento de R$ 670 mil, feito pelo Observatório Nacional, para a montagem da Rede Brasileira de Observatórios Magnéticos (Rebom).   "Os EUA têm uma dezena de observatórios fixos e centenas de bases móveis" para estudar o campo magnético, diz o pesquisador indiano, naturalizado brasileiro, Nalin Badulal Trivedi, coordenador da implantação da Rebom. Mais modesta, a rede nacional prevê cinco estações fixas e dez móveis. Mesmo assim, diz Trivedi, o projeto "preenche uma lacuna": atualmente, o Brasil tem apenas dois observatórios magnéticos em atividade permanente, ambos fixos. Um, construído em 1915, fica em Vassouras (RJ). O outro, em Tatuoca (PA), é de 1957.   Quanto ao que levou à decisão de construir os novos observatórios agora, Trivedi afirma que a necessidade era reconhecida há tempos. "Trata-se de um investimenro em infra-estrutura", afirma. "Finalmente obtivemos os recursos".   O diretor do Observatório Nacional, Sergio Luiz Fontes, explica que o acompanhamento do campo magnético da Terra, a partir do solo brasileiro, terá desde aplicações eminentemente práticas - como a elaboração de cartas magnéticas para o uso correto de bússolas, ou a análise magnética para a prospecção de recursos naturais no subsolo - até de ciência pura, como o estudo da Anomalia Magnética do Atlântico Sul e do Eletrojato Equatorial.   A anomalia é o ponto mais fraco do campo magnético terrestre, e até pouco tempo atrás seu centro estava sobre o sudeste brasileiro - atualmente, encontra-se no Paraguai. Veículos espaciais precisam de blindagem especial para passar pela anomalia, já que é o campo magnético da Terra que protege os equipamentos e os astronautas em órbita das partículas de alta energia disparadas pelo Sol. "O campo na anomalia tem cerca de metade da intensidade média do campo magnético da Terra", explica Trivedi.   Já o eletrojato é uma corrente elétrica que circunda a Terra pelo equador magnético - que, assim como os pólos magnéticos, é inclinado em relação ao equador geográfico - a uma altitude de 100 km. O Brasil é o país que mais tem território sob o eletrojato. Segundo Fontes, a Rebom dedicará pelo menos dois anos ao acompanhamento desse fenômeno.   "Além disso, há várias questões em aberto sobre o campo magnético terrestre", diz ele."Não se entende ainda muito bem como o campo se mantém", exemplifica. O diretor do ON diz que os equipamentos para os observatórios devem começar a chegar em meados de 2008, e as novas instalações devem estar operacionais até 2010. Dos três novos observatórios fixos, dois serão instalados nas Amazônia e um, no Distrito Federal.   O estudo da interação do campo magnético da Terra com os ventos de partículas solares vem ganhando importância com o aumento das redes de eletricidade e telecomunicações - em 1989, um grande blecaute que atingiu parte do Canadá foi atribuído a uma tempestade magnética desencadeada pelo Sol - e, embora as observações solares sejam feitas por satélites internacionais, observatórios no solo têm maior capacidade de monitoração do campo magnético terrestre, diz Fontes.   Nesse aspecto, os novos observatórios poderão ficar prontos a tempo de aproveitar uma oportunidade oferecida pela natureza: "Estamos passando por um período de atividade solar mínima", diz Trivedi, referindo-se ao ciclo de 11 anos em que o número de manchas solares cresce, diminui e volta a crescer. "Em 2011, a atividade solar chegará ao máximo. Gostaríamos de registrar as variações geomagnéticas e geoelétricas no período quieto, de atividade mínima, e perturbado, com atividade máxima".

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