Brasileiro contesta diferenças "morais" de clonagem

A diferenciação "moral" entre a reprodução de órgãos e a clonagem de seres humanos inteiros foi duramente criticada pelo pesquisador Fermin Roland Schramm, da Fundação Oswaldo Cruz (RJ), num dos últimos debates realizados durante o 6º Congresso Mundial de Bioética, que terminou neste domingo em Brasília.Para o pesquisador brasileiro, sob o ponto de vista da moral e da ética, não há por que fazer a diferenciação entre a clonagem terapêutica e a reprodutiva.Na avaliação de Schramm, se uma técnica tem a função de produzir órgãos para transplante ou tratar doenças como diabete, o que é moralmente aceito, a outra - que serve para dar a um casal estéril um filho -, também é legítima e válida. "Não há diferença entre as duas do ponto de vista moral", disse.O próprio pesquisador admitiu que a questão levanta uma série de controvérsias, mas defendeu que não há razões para condenar "moralmente" a clonagem humana. "Apesar da controvérsia, a clonagem reprodutiva é uma resposta adequada para casais estéreis", frisou.Outra aplicação prática para esse tipo de clonagem, defendida pelo pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, seria a pré-seleção de sexo de crianças, para evitar doenças genéticas ligadas ao gênero. "Toda vez que ampliamos o nosso campo moral, nos tornamos humanos mais respeitáveis", declarou.Durante os cinco dias do Congresso, que reuniu em Brasília mais de mil pesquisadores e estudantes de 62 países, diversos palestrantes defenderam a manutenção das pesquisas no campo da genética humana.O finlandês Matti Hayry, por exemplo, foi favorável à posição de Schramm, sobre a conveniência da clonagem humana como solução para casais estéreis que querem ter filhos, mas evitam a adoção. "É legítimo que um casal estéril deseje ter um filho por meio dessas técnicas", salientou.O professor John Harris, da Universidade britânica de Manchester e o professor da faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Marco Segre, também foram enfáticos ao defender a continuidade dos estudos sobre clonagem terapêutica e reprodutiva."Apesar da ironia, de que estamos brincando de Deus, se não fosse o trabalho científico, não teríamos vencido a batalha contra tantas doenças ao longo dos últimos anos", salientou Segre.Apesar do amplo apoio à manutenção das pesquisas no campo da genética humana, alguns cientistas aproveitaram o Congresso para lançar dúvidas sobre o desenvolvimento de pesquisas no campo da clonagem humana.Hayry afirmou que, do ponto de vista teológico, a clonagem é negada porque representa uma violação da "essência" humana. "Seres humanos têm sua essência e seria errado violar isso", disse o pesquisador, ao enumerar alguns dos argumentos contrários à clonagem humana.O bioeticista finlandês também argumentou que, atualmente, há ainda muitos prejuízos e danos na prática de clonagem humana. "Sabemos que ela não é segura", comentou.O Diretor do Programa de Bioética da Organização Panamericana de Saúde (OPAS), o chileno Fernando Lolas, disse que os pontos de vista defendidos pelo britânico Harris - de longe um dos mais favoráveis à manutenção dos estudos na área genética - precisam ser analisados e discutidos.Lolas concorda em que as melhores células para atingir determinados fins científicos são as embrionárias, mas ressalta que a utilização delas não vai, obrigatoriamente, melhorar a vida, como defendeu Harris. "Na melhor das hipóteses temos uma boa chance de tentar mudar para melhor", explicou.

Agencia Estado,

03 de novembro de 2002 | 17h40

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