Brasileiros descobrem fóssil de ancestral do crocodilo

Animal marca a transição entre a forma terrestre primitiva e a versão atual, anfíbia, do animal

Pedro Dantas, Agência Estado

31 de janeiro de 2008 | 19h38

Pesquisadores do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Museu de Paleontologia de Monte Alto apresentaram o fóssil que seria o "elo perdido" entre crocodilos da pré-históricos e os atuais.   Encontrado em maio de 2004, na estrada municipal de Monte Alto, no interior de São Paulo, o Montealtosuchus arrudacamposi viveu na região durante o período cretáceo superior, há cerca de 80 milhões de anos, tinha no máximo 1,70 m de comprimento, pesava até 50 quilos e, ao contrário da espécie atual, tinha a terra como hábitat.   "Ele era capaz inclusive de sobreviver e caçar em um clima árido e quente. A descoberta de um crocodilo terrestre é a quebra de um paradigma, pois se pensava no animal apenas como um anfíbio", comemorou o pesquisador do departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Felipe Mesquita de Vasconcellos, de 28 anos.    O pesquisador explica em seu artigo, publicado na revista Zootaxa no ano passado, que a prova da descoberta do "elo perdido" seria a choana (ligação entre as vias aéreas internas e externas ) do fóssil, que estaria localizado no meio do palato. "Os atuais jacarés e crocodilos possuem a choana localizada na parte posterior do palato e a narina para cima. Isso permite que quando estão com o crânio dentro da água, possam respirar. Já os crocodilos primitivos tinham a choana situada na parte anterior do palato. A localização no meio mostra que estamos diante de uma espécie intermediária, de transição na história evolutiva dos crocodilos", explicou Vasconcellos.   Ao contrário dos jacarés e crocodilos de hoje, lembrados sempre como predadores imóveis, solitários e dissimulados à espera da caça, o Montealtosuchus arrudacamposi era um predador "gregário e necrofágo", de acordo com o pesquisador .   "Era um animal que percorria grandes distâncias em bando e se alimentava principalmente de carne podre. Ele tinha agilidade e tamanho apenas para caçar animais de pequeno porte", disse Vasconcellos.   Outro bom motivo para a comemoração dos pesquisadores é que a descoberta pode alterar a história do surgimento dos crocodilos no planeta. "O achado mostra que a origem dos crocodilos atuais por ter sido no hemisférios sul e não na América do Norte e na Europa como se acreditava", declarou o pesquisador.   O bom estado dos ossos encontrados permitiu a reconstrução de 80% do esqueleto do crocodilo ancestral e, também, a reconstituição digital do animal extinto.   Para isso, milhões de anos após que seu último suspiro, o Montealtosuchus se submeteu a uma tomografia computadorizada em uma clínica no Rio. Os pesquisadores afirmaram que o feito foi possível graças ao cuidado com que é realizado o trabalho de escavação na Bacia de Bauru, realizado pelos voluntários do Museu de Paleontologia de Monte Alto. Eles são coordenados pelo diretor da instituição, Antônio Celso de Arruda Campos, de 73 anos, cujo nome batizou o crocodilo. Uma homenagem dos pesquisadores .   "Isto me engrandece. Vou chegar em Monte Alto com as baterias recarregadas e irei para às escavações na próxima semana. Ainda vamos achar muitas coisas por lá", disse o professor de economia aposentado. Ele se dedica aos sítios arqueológicos desde 1984, quando o primeiro fóssil de titanossauro foi encontrado em um loteamento da cidade.   Hoje, após mais de mil fósseis de diversas espécies pré-históricas descobertas, a Prefeitura até incluiu a figura de um dinossauro na logomarca da cidade, que aposta cada vez mais no turismo científico para atrair visitantes.   "Este é a terceira espécie nova encontrada que leva o meu nome. Já batizei uma tartaruga e uma barata", lembrou Campos.

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