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Brasileiros descobrem lagarto inédito na América do Sul

Fóssil de 18 milímetros da nova espécie, batizada de 'Gueragama sulamericana', foi achado em Cruzeiro do Oeste, no Paraná, município localizado a 527 quilômetros de Curitiba

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2015 | 06h00

RIO - Parente distante das iguanas, um lagarto de um palmo de comprimento e 80 milhões de anos vai modificar os estudos sobre esses animais. Pesquisadores brasileiros descreveram a nova espécie, batizada de Gueragama sulamericana, com base em um fóssil de 18 milímetros achado em Cruzeiro do Oeste (PR), a 527 quilômetros de Curitiba. "É o primeiro registro de fóssil desse grupo, os iguanídeos acrodontes, em toda a América do Sul. Essa descoberta muda completamente o que se sabia sobre esse réptil. Eles entraram na América do Sul 20 milhões de anos antes do que se pensava ", ressalta o paleontólogo Everton Wilner, do Centro Paleontológico (Cenpaleo), da Universidade do Contestado. O trabalho foi publicado nesta quarta-feira, 26, pelo periódico científico Nature Communications.

O fóssil - a mandíbula esquerda e alguns dentes bem preservados - foi encontrado ano passado numa escavação paleontológica à beira da estrada de uma vila rural. "As pessoas se surpreendem por termos reconstituído o lagarto a partir de fragmentos tão pequenos, mas o que distingue os acrodontes é justamente a dentição", explica Wilner.

otografias foram encaminhadas para a Universidade de Alberta, no Canadá, e examinadas por Michael Caldwell, especialista em répteis, e o aluno de doutorado Tiago Rodrigues Simões, que fez a graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao compararem o material com os dados armazenados na Universidade de Harvard, identificaram a nova espécie.

O mais antigo fóssil de iguanídeo acrodonte tem entre 180 e 160 milhões de anos e foi encontrado na Índia, que fazia parte do supercontinente Gondwana. O que se sabia até agora é que esse grupo se dispersou pela Ásia durante o período Cretáceo Superior (entre 83 e 66 milhões de anos) e ganhou o resto do mundo a partir da Era Cenozóica (de 66 milhões de anos atrás até os dias atuais): chegou à Ásia, África, Europa e, em menor número, à América do Norte. "Hoje quem for pesquisar a dispersão dos acrodontes terá de se basear pelo nosso estudo", afirma Wilner.

Entre 87 e 75 milhões de anos atrás, a região do noroeste do Paraná fazia parte de uma área extensa de deserto, conhecida hoje como Deserto Caiuá. Ali, o Gueragama sulamericana vivia próximo a áreas úmidas, como um  oásis, explicou o geólogo Luiz Carlos Weinschütz, coordenador dos trabalhos de campo. "Em deserto, raramente chove. Mas quando chove, são tempestades muito fortes, carregam os ossos para o fundo do lago e isso facilita a fossilização", explicou Weinschütz.

O Gueragama (guera quer dizer antigo; agama, sexo feminino) estava próximo de onde, em 2011, os pesquisadores do Cenpaleo encontraram fósseis de pterossauros. Também era uma nova espécie, a dos Caiuajara drobuskii, descrita no ano passado. "Era uma região em que não havia nenhum fóssil encontrado. De repente, são descobertos centenas de fósseis de pterossauro, de uma espécie completamente diferente. E agora um lagarto que nem se desconfiava que existia no Brasil. Isso demonstra a importância do investimento em paleontologia. Olha a contribuição que a gente dá para a ciência. Não só para o Brasil, mas para a pesquisa mundial", afirmou o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional da UFRJ, que colaborou com a pesquisa.

O trabalho teve apoio da Universidade do Contestado, do Museu Nacional da UFRJ, da Universidade de Alberta e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). A prefeitura de Cruzeiro do Oeste entrou com apoio logístico - cedeu equipamentos, máquinas e funcionários.

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