Brasileiros e chineses identificam novos pterossauros

A descoberta de duas espécies de répteis voadores (pterossauros) feitapor pesquisadores chineses e brasileiros abriu caminho para a criaçãode uma nova teoria sobre ocupação e competição durante o períodoCretácio (entre 145 e 65 milhões de anos atrás): as aves dominariam ointerior do continente, enquanto os pterossauros reinariam nas zonasCosteiras.O achado inédito, tema de artigo publicado na edição desta quinta-feira da revista Nature, reforça o acordo de cooperação entre estudiososnacionais e da China, onde os fósseis foram encontrados, e acena paranovos estudos.Iniciado no ano passado, o trabalho científico, assinado por XiaolingWang, Zhonghe Zhou - ambos do Instituto de Paleontologia de Vertebradose Paleoantropologia de Beijing, na China -, Alexander Kellner, do MuseuNacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Diógenesde Almeida Campos, do Departamento Nacional de Produção Mineral, mostraque os répteis voadores tinham em torno de 2,4 metros de envergadura ehábitos alimentares praticamente restritos a peixes e insetos.Os dois fósseis foram encontrados na região Liaoning, no noroeste doPaís, onde os depósitos paleontológicos são formados por camadas onde,entre 138 milhões e 120 milhões de anos atrás, existiam rios e lagos,além de tufos vulcânicos. A área é única no mundo, por reunir aves epterossauros. Foi esta característica, explicou Kellner, que permitiu aformulação da mais recente teoria.Competição?A pergunta de como aves e pterossauros competiam só pode serrespondida em Liaoning, pois só lá ambos são encontrados. Já tínhamosa hipótese de que os répteis voadores eram mais abundantes na costa,mas não sabíamos como era dentro do continente. Pelo que vimos, nointerior, as aves estavam ganhando?, disse o pesquisador, durante adivulgação da descoberta, no Museu Nacional, quando foram apresentadascópias dos fósseis, já que os originais estão depositados no institutoem Beijing.Especula-se que as aves teriam uma melhor adaptação em lugares maisapertados, de vegetação mais densa, já que os pterossauros, por teremasas maiores e mais frágeis, encontrariam na região costeira umambiente mais propício ao seu desenvolvimento.Em Lianing, disse Almeida Campos, estão dois dos principais depósitosfósseis da China. Na base está a Formação Yixian, com cerca de 125milhões de anos, onde os pesquisadores encontraram o crânio do animalbatizado de Feilongus youngi (sendo a primeira palavra uma tradução, em chinês, para dragão voador, e a segunda, uma homenagem ao estudiosochinês C.C. Young, o primeiro a descrever um pterossauro na China). É omaior representante do grupo Archaeopterodactyloidea conhecido até oMomento.O Feilongus youngi, observou Kellner, tem uma característica que odiferencia de todos os outros répteis voadores do grupo ao qual elepertence: a arcada dentária superior é maior do que a inferior. ?É umadiferença real, ou seja, não foi causada por problemas de preservaçãodo fóssil. Ainda não sabemos o motivo disso?.Acima do Yixian está a Formação Jiufotang, com estimados 120 milhõesde anos, onde foi achada parte do esqueleto do Nurhachius ignaciobritou (a junção do nome do fundador da dinastia Chi?ing com o de Ignácio M.Brito, um dos principais paleontólogos brasileiros). Eles sediferenciam por ter dentes triangulares.Região costeiraBase para a sustentação da teoria lançada agora, é a predominância dasaves na região costeira, seja em variedade ou número de exemplares. Foram encontradas 26 espécies de aves, sendo que cinco ainda precisamser descritas, contra 16 espécies de pterossauros - três aindaaguardando a descrição.?A diversidade é maior, mas, mais importante do que isso é que encontramos 140 exemplares de pterossauros e mais de dois mil exemplares de aves. Isso mostra que elas estavam melhor adaptadas?, detalhou, acrescentando que a próxima etapa da pesquisa é descobrir as razões para o fenômeno.Segundo ele, sabe-se, por exemplo, que os répteis voadores sãoaparentemente mais fortes, já que têm uma envergadura de mais de doismetros, o dobro da registrada entre as aves. Porém, destacou, análisefeita nos ossos de ambos demonstrou que os dos pterossauros são maisFrágeis.Outra etapa da parceria iniciada entre o Brasil e a China vai buscar descobrir por qual motivo foram encontrados, no local, espécies de fósseis de pterossauros achados no Araripe, no Ceará.?Não foi surpresa encontrarmos um réptil da espécie Anhangueridae,pois este tem entre quatro e cinco metros e podem voar. Mas não conseguimos explicar a razão da existência da espécie Tapejaridae, queé de pequeno porte?, ressaltou Kellner.A pesquisa teve, como principais patrocinadores, a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a AcademiaBrasileira de Ciências e a Academia Chinesa de Ciências.

Agencia Estado,

06 de outubro de 2005 | 11h36

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