Brasileiros identificam chave para tratamento de 'asma do esôfago'

Brasileiros identificam chave para tratamento de 'asma do esôfago'

Cientistas descobrem molécula que tem papel central na esofagite eosinofílica, uma a doença alérgica incurável que causa inflamação séria do esôfago; descoberta pode abrir caminho para terapias

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2015 | 16h33

Um grupo internacional de pesquisadores, com participação brasileira, identificou uma molécula que tem um papel central na esofagite eosinofílica, uma grave doença gastrointestinal também conhecida como "asma do esôfago".

Até agora, pouco se conhecia sobre os processos químicos responsáveis por desencadear essa doença, que, embora relativamente rara, é cada vez mais frequente na população e pode causar grande sofrimento. Segundo os autores do estudo, a descoberta poderá abrir caminho para novas estratégias terapêuticas.

A doença é conhecida como "asma do esôfago" porque se caracteriza por uma inflamação alérgica semelhante à da asma. Mas, em vez de atingir os pulmões, a doença atinge o esôfago - o tubo que liga a boca ao estômago. O trabalho foi realizado por cientistas do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Yale, nos Estados Unidos.

De acordo com um dos autores do estudo, Heitor de Souza, pesquisador do Idor e professor da UFRJ, os pacientes com a doença têm, em seu sistema imunológico, a presença de um tipo específico de glóbulo branco - o eosinófilo - cobrindo todo o esôfago e provocando inflamação.

Com isso, o esôfago acaba desenvolvendo fibrose, uma espécie de cicatrização do tecido. A consequência é uma grande dificuldade para engolir e, nos casos mais sérios, os pacientes precisam ser submetidos a um desagradável e arriscado procedimento de dilatação do esôfago.

"Não se sabe quando a doença apareceu, mas os primeiros relatos são da década de 20. No final dos anos 80, começaram a surgir casos em crianças. É uma esofagite que muitas vezes é diagnosticada como doença de refluxo, mas os pacientes não respondem ao tratamento anti-refluxo. A base da doença é outro tipo de inflamação alérgica, que lembra a da asma. Muitos pacientes têm grande um impacto alimentar.Eles engolem, mas a comida para no meio do esôfago, causando desconforto e angústia", explicou Souza ao Estado.

Segundo Souza, como a esofagite eosinofílica tem uma base alérgica, os cientistas têm tentado identificar alimentos que induzem esse tipo de inflamação - em geral, amendoins, nozes, castanhas e leite. Mas, de acordo com ele, essa é uma estratégia conservadora, porque não resolve o problema de forma prolongada.

"Em geral os pacientes são tratados com corticóides, mas o uso crônico desses medicamentos traz uma série de efeitos colaterais. Por isso é preciso conhecer melhor a doença e pesquisar outras formas de terapia", afirmou.

Molécula-chave. A fim de compreender melhor a doença, Souza decidiu estudar uma molécula já observada em outras alergias inflamatórias e conhecida como fator de inibição de migração de macrófagos (MIF). Quando o corpo está sendo ameaçado por doenças, a molécula MIF é liberada por células do sistema imunológico, incluindo os eosinófilos.

Ao analisar biópsias de pacientes diagnosticados com a asma do esôfago, os cientistas constataram que o MIF estava muito ativado na mucosa do esôfago dessas pessoas, em comparação ao que ocorre com pessoas saudáveis que sofrem de doenças como refluxo. Assim, os cientistas constataram que a presença do MIF poderia explicar o acúmulo de eosinófilos no esôfago.

"A proteína MIF é muito comum no organismo e tem múltiplas funções. Ela é produzida em situações de risco e é armazenada, como  um arsenal com efeito antibacteriano. Sempre temos MIF armazenado, mas na esofagite eosinofílica a molécula está presente em níveis muito maiores", afirmou.

Depois disso, os cientistas desenvolveram um modelo experimental com camundongos, induzindo nos animais os mesmos sintomas da "asma do esôfago". Alguns dos camundongos foram geneticamente modificados para não produzir MIF e mostraram redução da inflamação, em comparaçõa aos animais que produziam a molécula.

"Também tratamos os camundongos com um medicamento que bloqueia os efeitos do MIF e eles não mostraram acúmulo de eosinófilos no esôfago, nem o desenvolvimento da doença", declarou Souza.

Todo o trabalho teve início em 2009, segundo Souza. O próximo passo deverá ser a criação de outro modelo experimental e a realização de estudos de toxicidade.

"A aplicação de um tipo de terapia como esse em humanos ainda está muito distante, mas achamos um caminho importante. Queremos agora investigar a causa desse acúmulo de MIF e descobrir se ele é o combustível da reação alérgica", afirmou Souza. 

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