Brasileiros isolam mais bactérias magnéticas na Antártida

De difícil cultivo, bactérias que se orientam usando campos magnéticos têm várias aplicações em potencial

Carlos Orsi, do Estadao.com.br,

08 Dezembro 2009 | 15h51

Sorriso aberto, aplauso contido: assim a doutoranda em microbiologia Karen Tavares Silva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) reage ao ver, na lâmina do microscópio, um ponto escuro mover-se para a borda de uma gota d'água, atraído pelo pólo sul de um ímã. Alegria que aumenta quando, retirado o ímã, o ponto afasta-se. Era a confirmação de que amostras de sedimentos colhidas de uma praia na Antártida contêm bactérias capazes de se orientar usando campos magnéticos.

 

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Bactérias magnéticas são comuns em diversas partes do mundo, mas sua presença na Antártida só foi constatada no início deste ano, pelo brasileiro Ulysses Lins. O trabalho realizado por Karen agora, em dezembro, dá continuidade à pesquisa de Lins.

 

Equipamento: com a aplicação de um campo magnético, as bactérias migram para a ponta da garrafa

 

A amostra em que a pesquisadora obteve seu primeiro resultado positivo havia sido extraída de Punta Ullmann, uma parte da Ilha Rei George, na Antártida, separada da estação brasileira Comandante Ferraz por um braço de mar. Esse sucesso veio após uma série de testes negativos em sedimentos retirados de outros pontos da ilha.

 

"Bactérias magnéticas têm várias aplicações em potencial", diz Karen. "Mas é muito difícil cultivá-las. Além de serem muito vulneráveis à presença de oxigênio, há condições em que elas vivem e se desenvolvem, mas sem desenvolver os magnetossomos".

 

Magnetossomos são minúsculos cristais de minério de ferro que ficam embalados em camadas de lipídio - gordura - no interior da bactéria, e que sentem a presença de campos magnéticos. Com tamanho da ordem de dezenas de nanômetros (a espessura de um fio de cabelo é milhares de vezes maior), são eles que tornam essas bactérias tão interessantes.

 

As pesquisadoras Lia Teixeira e Karen Silva (d) durante uma coleta de sedimentos na Antártida

 

Uma aplicação possível seria aproveitar a capa de gordura do magnetossomo para associá-lo a moléculas específicas, como drogas de quimioterapia, e usar campos magnéticos para conduzir essas moléculas ao local exato do tumor.Cientistas chineses publicaram os resultados de um teste preliminar dessa técnica em 2008.

 

Além de já virem encapsulados em material biológico, os cristais dos magnetossomos são ímãs permanentes dotados de uma perfeição de forma que ainda não é atingida por processos artificiais, diz a pesquisadora.

 

Os próximos passos da pesquisa envolvem coletar mais amostras e tentar determinar a que espécies pertencem as bactérias magnéticas antárticas.

 

A capacidade de produzir magnetossomos aparece em diversos grupos de bactérias de várias partes do globo, explica Karen, o que gera outros mistérios que aguardam solução: como um mesmo processo pode funcionar em ambientes tão diversos? E como bactérias tão diferentes vieram a adquirir essa mesma capacidade?

 

A pesquisadora diz que existem várias explicações propostas, mas ainda nenhuma conclusiva. E, mesmo com todo o potencial prático das bactérias magnéticas a ser explorado, ela defende o prazer e a importância da pesquisa pura. "Em pesquisa aplicada, muitas vezes você está trabalhando com algo que outros já descobriram", diz ela. "Na pesquisa pura, há a emoção de ver algo que ninguém nunca viu antes".

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