Brincando de salvar a Mata Atlântica

A história começou como uma brincadeira nas oficinas de educação ambiental do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) para crianças da vila de Superagüi, no litoral do Paraná. Fantoches de feltro foram desenhados e produzidos pelas educadoras para representar duas espécies locais ameaçadas de extinção, o mico-leão-da-cara-preta e o papagaio-de-cara-roxa. Logo, as mães das crianças se juntaram às educadoras e nasceu uma oficina de fabricação de fantoches. Então, um visitante dinamarquês, Bengt Holst, que veio conhecer o Parque Nacional de Superagüi, ali ao lado, levou os brinquedos para a Europa e acabou encomendando mais 4 mil micos e papagaios de feltro. Entregues no segundo semestre de 2002, os fantoches foram colocados à venda nas lojas dos Zôos de Copenhagen, na Dinamarca (do qual Holst é vice-diretor), e Dublin, na Irlanda, despertando o interesse de outras lojas de zôos, na Espanha, França, Alemanha e Reino Unido.A brincadeira transformou-se num plano de negócios sustentáveis, que aumentou a renda das mulheres de Superagüi em 375%. E não acabou aí: neste mês de março, o IPÊ entrega o primeiro pedido de uma loja brasileira, a Originalis, do Rio de Janeiro. Neste meio tempo, quatro das mulheres da oficina de Superagüi foram ao Pontal do Paranapanema, no extremo oeste de São Paulo, para ensinar as mulheres de assentamentos vizinhos ao Parque Estadual do Morro do Diabo a fabricar fantoches. Lá, os animais retratados serão o mico-leão-preto, a onça pintada, o tucano e a anta, com os quais a entidade ambientalista trabalha.?Cada fantoche é vendido com uma etiqueta contendo informações sobre a espécie, seu habitat e a ameaça de extinção, relacionada, sobretudo, à fragmentação da Mata Atlântica?, explica Suzana Pádua, presidente do IPÊ e uma das desenhistas acidentais dos bonecos. ?Exibimos os fantoches na Casa dos Primatas, no Zôo de Copenhagen, explicando como estes bonecos poderiam ajudar a salvar a Mata Atlântica e, consequentemente, o mico-leão-de-cara-preta que nela vive, tudo isso, integrando uma campanha de conscientização e arraecadação de fundos para os micos-leões?, conta Bengt Holst, em entrevista via Internet à Agência Estado. ?Os 3 mil fantoches foram vendidos por US$10 mil, integralmente enviados ao Fundo dos Micos Leões do Brasil. Os adultos que compraram os bonecos para seus filhos levaram também informação e discutiram sobre o assunto em casa?.Mas a melhor parte da história foi o efeito da fabricação dos fantoches sobre a comunidade local: o conhecimento sobre aquelas espécies e a descoberta do orgulho de morar numa região privilegiada em biodiversidade aumentaram as chances de sobrevivência dos animais de carne e osso, devido à diminuição do número de pessoas envolvidas no tráfico de animais silvestres. IPÊ/DivulgaçãoFantoches de mico-leão-da-cara-preta e papagaio-de-cara-roxa conquistam zôos da Europa.Na Ilha de Superagüi, onde o IPÊ desenvolve projetos de conservação e educação ambiental há 7 anos, a taxa de crescimento da população de micos-leãos-de-cara-preta é de 6,3%, enquanto no continente, no mesmo litoral e mesma mancha remanescente de Mata Atlântica, a população encolhe 2% ao ano.Comércio justoNão é à toa que os moradores de Superagüi aprenderam a importância do chamado comércio sócio e ambientalmente justo e já repetem seu caso de sucesso para os turistas. Algumas crianças até ensaiam pequenos teatrinhos com os fantoches, nas escolas, nas comunidades vizinhas e para os visitantes de fora. E mais 25 mulheres já entraram na fila para produzir fantoches também. Como as 8 pioneiras, hoje elas contam apenas com a minguada renda de descascadoras de camarão, atividade fadada a desaparecer com o beneficiamento industrial dos grandes compradores. Cada quilo de camarão descascado vale R$ 0,80 e uma descascadora rápida faz cerca de R$3,00 por dia. Costurar um fantoche, em compensação, rende R$3,00 e cada mulher faz, em média, 25 fantoches por dia.?Só aí dá para ver que melhorou muito a nossa vida?, conta Denise Corrêa de Ramos, de 31 anos, que se tornou uma espécie de gerente da oficina. ?No início eram 40 mulheres, mas elas foram desistindo, achando que era perda de tempo e ficaram só 8. Agora 25 mulheres voltaram e aprenderam e estão esperando mais pedidos para trabalhar?. Os fantoches também são vendidos localmente, a R$12 reais cada, e, num feriado como o de Carnaval, chegam a sair de 80 a 100 bonecos. ?A gente sabe que tem que preservar os bichos, sem eles não teria nada disso?, completa Denise.Novas parceriasPara a proprietária da Originalis, Karina Araújo, a encomenda dos fantoches do IPÊ não é uma simples compra, é o início de uma parceria. A loja vende produtos de aromaterapia e artesanatos diversos e já tem acordos com 9 outras organizações não-governamentais (ongs) e centros de artesãos, seguindo o princípio da economia sustentável.?Em alguns casos, ajudamos com o design, oferecemos suporte financeiro para a compra da primeira partida de matéria prima, fazemos os cálculos necessários, desenvolvemos um plano de negócios e garantimos a compra de produtos como os fabricados pelos presidiários de Minas Gerais, do grupo Mensageiros do Vento?, explica Karina. Os fantoches de fauna nativa ficarão no cantinho das crianças, ao lado das bonecas e carrinhos de madeira fabricadas pelo grupo de artesão da favela Monte Azul, de São Paulo.No IPÊ, ?o êxito na implementação deste projeto demonstrou o potencial de multiplicação para as outras regiões de atuação, abrindo a perspectiva de salvar outras espécies ameaçadas de extinção?, resume Andréa Peçanha, responsável, na entidade, pelos contatos comerciais e desenvolvimento de novos produtos, com o mesmo objetivo de aumentar a renda de comunidades do entorno de remanescentes de Mata Atlântica, revertendo as pressões de degradação ambiental geradas pela pobreza. Além de Superagüi (PR) e do Pontal do Paranapanema (SP), ela já estuda transformar o peixe-boi num símbolo para as comunidades próximas da Estação Ecológica de Anavilhanas, no Amazonas, e, em Nazaré Paulista (SP), onde fica a sede do IPÊ, as mulheres estão iniciando a produção de sacolas de pano, com especial ênfase no macaco sauá, espécie ainda encontrada na região.

Agencia Estado,

24 de fevereiro de 2003 | 09h50

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