Budismo não é mais a religião 'funerária' no Japão

Declínio dos templos e da população rural, além da falta de descendentes, tira 'monopólio funerário' da religião

The New York Times

21 de julho de 2008 | 20h51

Os japoneses têm uma abordagem simples, como um buffet, da religião, dando adeus para o ano velho em templos budistas e acolhendo o ano novo, várias horas depois, em santuários xintoístas. Casamentos são realizados com rituais xintoístas ou, tão facilmente, cristãos.   No que diz respeito a funerais, entretanto, o japoneses têm sido inflexivelmente budistas - tanto que o budismo no Japão é freqüentemente chamado de "budismo funerário", uma referência ao quase monopólio da religião para elaborar, e lucrar, com cerimônias de morte.   Mas essa expressão também descreve uma religião que, parecendo atender mais às necessidades dos mortos que dos vivos, está perdendo sua posição na sociedade japonesa.   "Essa é a imagem do budismo funerário: que ela não atende às necessidades espirituais das pessoas", disse Ryoko Mori, o religioso chefe do Templo Zuikoji, de 700 anos, no norte do Japão. "No islã ou no cristianismo, eles fazem sermões sobre questões espirituais. Mas no Japão hoje em dia, poucos religiosos do budismo fazem isso."   Mori, de 48 anos, 21° chefe do templo, estava na dúvida se ele sobreviveria até o 22°. "Se o budismo japonês não agir agora, ele vai desaparecer", disse. "Nós não podemos esperar. Nós temos que fazer alguma coisa."   Por todo o Japão, o budismo enfrenta um confluência de problemas, alguns parecidos com religiões em outros países ricos, outros únicos à fé local.   A falta de sucessores aos chefes da religião está colocando em risco os templos em todo o país. Enquanto o interesse no budismo está caindo nas áreas urbanas, os baluartes da religião estão com população cada vez menor, com a parte mais velha da população morrendo e as taxas de natalidade baixas.   Talvez de maneira mais significante, o budismo está perdendo seu controle da indústria funerária, à medida que cada vez mais japoneses se voltam para as casas funerárias ou mesmo não fazem funerais.   Durante a próxima geração, muitos templos no interior devem fechar, levando séculos de história local com eles.   Na cidade de Oga, na península de mesmo nome, sacerdotes budistas estão olhando para a população local e indústria de pesca em constante declínio.   "Não é um exagero dizer que a população está em apenas metade do que foi no pico e que todos os negócios também se reduziram pela metade", disse Giju Sakamoto, de 74 anos, o 91° chefe do templo mais antigo do local, Chorakuji, fundado no ano 860. "Dada essa realidade, simplesmente insistir que nós somos uma religião e temos uma longa história parece um conto de fadas. Não tem sentido."   "É por isso que eu acredito que esse local vai além da fé", disse Sakamoto em seu templo.   Para sobreviver, Sakamoto colocou suas energias em administrar uma creche e um novo templo no crescente subúrbio de Akita. Esse templo, entretanto, composto por apenas 60 famílias desde que abriu há dois anos, muito menos que as 300 necessárias para o templo permanecer financeiramente viável.   Por séculos, o templo budista médio, cuja administração era passada do pai para o filho mais velho, teve uma congregação fixa. Com 300 famílias para satisfazer, o chefe do templo e sua mulher ficavam permanentemente ocupados.   Não apenas o número de templos tem caído no Japão - de 86.586 em 2000 para 85.994 em 2006, de acordo com a Agência Nacional de Cultura - mas as famílias associadas também diminuíram.   "Nós temos que encontrar outros trabalhos porque apenas o templo não é suficiente", disse Kyo Kon, de 73 anos, esposa do chefe do templo de Kogakuin, que tem apenas 170 membros. Ela trabalhava durante o dia em um creche e seu marido em uma construtora.   Não longe dali, em Doshoji, em um templo que tem apenas 85 famílias associadas, o chefe, Jokan Takahashi, de 59 anos, estava enfrentando o problema da maioria dos negócios familiares do país: encontrar um sucessor.   Seu filho mais velho passou pelo treinamento para assumir o templo mas Takahashi está em dúvida para pedir que assuma o templo.   "Meu filho cresceu conhecendo nada além do mundo do templo, e ele me disse que não se sentia livre", disse, explicando que seu filho, agora com 28 anos, estava trabalhando em uma empresa em uma cidade próxima. "Ele me pediu para o deixar ser livre enquanto eu ainda estivesse trabalhando, e disse que viria e assumiria quando tivesse 35 anos."   "Mas considerando o futuro, pressionar um jovem a tomar conta de um templo como esse pode ser cruel", disse Takahashi, depois de fazer um tour com os visitantes pelo salão principal do templo.   Em uma manhã recente, Mori, começou o dia com uma visita a uma casa numa região produtora de arroz, marcando 33° ano da morte do avô. Fazendo o ritual no altar da casa, Mori rezou e entoou mantras. Logo depois, ele repetiu os rituais em outra casa, comemorando o 7° aniversário de um avô.   Cada vez mais japoneses, especialmente aqueles nos meios urbanos, esqueceram essas tradições. Muitos não fazem mais parte de templos e se apóiam em casas funerárias que oferecem padres budistas para funerais quando seus parentes morrem.   Além disso, um crescente número de Japoneses estão decidindo cremar seus entes queridos a fazer funerais, disse Noriyuki Ueda, antropólogo dos Instituto de Tecnologia de Tóquio e especialista em budismo. "Por causa disso, padres budistas e os templos não estão mais envolvidos com funerais", disse Ueda.

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