Burocracia pode prejudicar turismo no Petar

A segurança dos visitantes do Parque Estadual do Alto Vale do Ribeira (Petar), no sul de São Paulo, poderá estar comprometida, no próximo feriado de Páscoa, devido à falta de agilidade do Instituto Florestal (IF) na adoção de medidas de emergência, após acidente ocorrido no Carnaval, com duas mortes. Segundo especialistas em exploração de cavernas da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), o acidente foi uma fatalidade, mas poderia não ter acontecido, se o zoneamento do parque estivesse sendo cumprido, ou poderia ter conseqüências menos graves, se houvesse um plantão de atendimento com equipamentos e especialistas disponíveis. No Carnaval, um grupo de jovens foi surpreendido por uma cabeça d?água dentro da caverna Casa de Pedra e alguns foram arrastados pela correnteza, com a morte de um turista e do guia do grupo. Uma cabeça d?água é como uma onda com a força de enxurrada, provocada por chuvas na cabeceira de rios, que percorrem terrenos acidentados e, em geral, têm leitos em forma de calha e/ou com fundo de pedra. As chuvas podem ser muito localizadas ? como as tempestades convectivas, vulgarmente chamadas de chuvas de verão ? e mesmo assim a água acumula rápido, é canalizada no leito, desce o terreno acidentado com violência e também baixa depressa. Na Casa de Pedra, no Petar, o rio passa por dentro da caverna e é difícil perceber a aproximação de uma cabeça d?água. Por isso, de acordo com o zoneamento do parque, a caverna é de uso restrito: turistas desacompanhados só podem ir até a entrada e, mesmo acompanhados por guias, não devem percorrer a trilha interna nos meses de chuva. A ocorrência de outras cabeças d?água, no mesmo local do acidente, já reteve temporariamente alguns grupos de espeleólogos, mas sem conseqüências graves, até então.De acordo com membros da SBE e agentes de turismo de aventuras, que atuam no Petar, os monitores do parque vinham permitindo a entrada de até 100 turistas por dia na Casa de Pedra, mesmo no verão, confiando apenas em previsões genéricas de tempo e na avaliação empírica de probabilidade de chuva. No dia do acidente, o parque contava com um rádio novo de comunicação interna, que não foi acionado por falta de autorização de funcionamento. E a moto dos guardas-parque também não pode ser usada para chegar ao local do acidente, porque estava sem gasolina.O diretor do Instituto Florestal, Valdir de Cicco, esteve no Petar e na cidade vizinha de Iporanga, logo após o acidente, e confirma que havia recebido uma proposta para estabelecer um grupo de trabalho com a SBE e o Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (CNRB-MA). A parceria já vinha sendo discutida há um ano, mas após o acidente adquiriu caráter de urgência, pois permitiria a reavaliação das condições de segurança nas cavernas mais visitadas e adoção de medidas emergenciais, já para o feriado de Páscoa, tendo em vista o grande número de visitantes esperado. ?Recebi a minuta da portaria para formalizar esta parceria há pouco mais de 20 dias, mas não posso dar atribuições à SBE, que é uma ong, então fiz modificações no texto e isso retardou a assinatura?, diz de Cicco. A portaria foi publicada apenas nesta sexta feira, dia 11, limitando o prazo para execução das medidas. ?Infelizmente a portaria saiu em cima da hora, não sei se será possível tomar as providências necessárias, mas o importante é que saiu?, comenta Clayton Ferreira Lino, do CNRB-MA. Entre as propostas urgentes, ele cita o cadastramento dos monitores de operadoras de turismo e pousadas, que acompanham turistas dentro das cavernas, e a revisão das trilhas e áreas restritas por problemas de segurança.Até agora, as duas medidas concretas tomadas pelo IF para aumentar a segurança dos visitantes foram a melhoria da sinalização, com a elaboração de novas placas de aviso para as cavernas - que devem ficar prontas às vésperas do feriado - e a ordem de atender ao zoneamento das cavernas, relembrando aos monitores e guias quais podem ser visitadas sem acompanhamento (uso intensivo), quais são de visitação acompanhada (uso extensivo) e quais são restritas a especialistas ou em determinadas épocas do ano. ?A médio e longo prazo, vamos promover a reciclagem dos guias, com cursos, e rever o zoneamento, e não descartamos a parceria com a SBE, que sempre nos ajudou?, declara Valdir de Cicco.Além das medidas de emergência, a formalização do grupo de trabalho deve facilitar a reclassificação das cavernas, incorporando algumas novas e rediscutindo as restrições, em função das condições atuais, da demanda de visitação e da capacidade de suporte de cada caverna. A parceria não implica no comprometimento de recursos do IF com os parceiros, mas demandará verbas para implementação das medidas e deve levantar uma velha discussão em torno do uso dos ingressos do parque.O Petar é um dos poucos parques paulistas, senão brasileiros, que cobra ingressos (R$3,00). Inicialmente, os recursos arrecadados iam para uma conta diferenciada, administrada pelo diretor do parque, com aplicação na manutenção da própria unidade de conservação. Há 4 anos esta conta diferenciada caiu em desuso e os recursos vão para um caixa geral do IF, sem retornar ao Petar.Vale lembrar que a SBE tem um histórico de 33 anos de bom relacionamento com a comunidade local, os agentes de turismo de aventura e a direção do Petar, tendo colaborado informalmente para organizar a visitação do parque ? considerada exemplar até alguns anos atrás. A gestão especializada é particularmente importante no turismo em cavernas, porque há muitos detalhes diferenciados para tratar, seja quanto à segurança dos visitantes, seja quanto à minimização dos impactos ambientais. A expectativa, agora, com o novo grupo de trabalho, é que o Petar retome sua condição de vanguarda, às vésperas de completar 45 anos de sua criação.

Agencia Estado,

13 de abril de 2003 | 13h38

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