Caçador jura matar conservacionistas

O município de São Raimundo Nonato, no Piauí, conhecido mundialmente por abrigar o Parque Nacional da Serra da Capivara, atualmente é palco de uma guerra entre os caçadores e transgressores de leis ambientais e os responsáveis pela unidade de conservação. A arqueóloga e presidente da Fundação Museu do Homem Americano (Fundham), Niéde Guidon, e o gerente do parque, o biólogo Isaac Simão Neto, estão sendo ameaçados de morte pelo caçador Paulo de Jesus Souza, preso desde novembro passado, após matar a irmã e funcionária do parque, Ivani de Souza Ramos.Ivani era viúva e deixou três filhos. Ela trabalhava em uma das portarias de saída do parque, onde primeiro foi agredida a facão pelo irmão, no rosto e nos braços, depois assassinada com um tiro de espingarda de caça calibre 12, pelas costas. Após matar a irmã, Souza dirigiu-se a um bar da cidade e lá repetiu as ameaças de morte, dizendo que Niéde e Simão Neto seriam os próximos. Está detido, desde então, na delegacia da cidade, pela terceira vez. Nas duas vezes anteriores foi flagrado caçando tatu dentro do parque. O receio dos conservacionistas é que Souza, considerado um homem violento, seja liberado e cumpra as ameaças. "Já solicitamos, ainda sem sucesso, sua transferência para um presídio de segurança e seu julgamento através da Justiça Federal, uma vez que o crime ocorreu dentro de uma área da União (o parque)", disse à Agência Estado Niéde Guidon.Segundo ela, é urgente e extremamente importante a instalação de uma delegacia da Polícia Federal em São Raimundo Nonato, hoje na rota do tráfico de drogas e do transporte de madeiras cortadas ilegalmente. "Seria fundamental para conter a ação de valentões, que bebem e saem ameaçando quem faz qualquer coisa em defesa da lei", disse Niéde. "A lei de Brasília aqui não chega, aqui mandam os políticos locais".Em apoio às reivindicações dos responsáveis pelo parque, a Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação (Rede Pró-UC - redeprouc@onda.com.br), formada por 17 entidades ambientalistas, lançou hoje uma campanha via Internet para informar a opinião pública e pedir ao governo federal proteção contra as ameaças.Os ambientalistas estão enviando cartas às autoridades executivas e judiciais do Piauí e ao Ministério da Justiça. "Estamos em campanha em defesa da vida dessas pessoas, que atuam diariamente na preservação deste patrimônio que é de todos nós", diz a presidente da Rede Pró-UC, Maria Tereza Jorge Pádua.O Parque Nacional da Serra da Capivara tem 130 mil hectares e fica numa área de caatinga nordestina, onde há ocorrência de canyons e grutas, muitas das quais decoradas com pinturas rupestres. Desde que começou a ser administrado em parceria com a Fundham, tornou-se uma das melhores referências nacionais, em termos de manejo ambiental e preservação arqueológica.Dentro do parque já foram localizados 545 sítios arqueológicos, com os vestígios mais antigos da presença do homem primitivo nas Américas. Alguns destes sítios compõem um museu a céu aberto, com visitação pública. Graças ao trabalho de Niéde Guidon e sua equipe, o parque é um dos Sítios do Patrimônio Cultural da Humanidade, reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). O parque ainda abriga diversas espécies ameaçadas de extinção de um dos ecossistemas brasileiros menos protegidos legalmente, que é a caatinga. Clóvis Ferreira/AEAEO trabalho da arqueóloga Niéde Guidon, agora ameaçada de morte, é considerado referêncianos parques brasileiros.Apesar da proibição de caça, tatus, tamanduás e veados são freqüentemente mortos dentro dos limites do parque e muitas vezes vendidos como tira-gosto em bares ou servidos em festas de políticos locais, que costumam ordenar a soltura dos caçadores eventualmente detidos na delegacia. De acordo com Niéde, alguns sítios arqueológicos tem sido danificados pelo excesso de formigas e cupins, devido à caça dos tamanduás, seus predadores naturais. No entorno do parque, existem diversas plantações comerciais de maconha e a especulação imobiliária tem reduzido drasticamente a qualidade dos recursos hídricos, como o rio Piauí, cujas lagoas foram aterradas ou assoreadas para implantação de condomínios e venda de lotes. "Recentemente instalou-se um lava-jato de caminhões na beira do rio Piauí, que enche o rio de graxa e óleo, ameaçando ainda mais as espécies que sobreviveram ao assoreamento", conta Niéde. "Denunciei o lava-jato ao Ibama, por estar em área de preservação, e o proprietário me ameaçou com uma surra de facão. Aqui é assim".

Agencia Estado,

22 de janeiro de 2002 | 15h38

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