Cadeirantes radicais organizam expedição de ecoturismo

Trilhas no mato, cachoeiras, praias e montanhas não são territórios proibidos para pessoas com algum tipo de deficiência física, sensorial ou mental. Nem os esportes radicais, praticados em grande parte dos destinos ecoturísticos brasileiros. Ao contrário do que se pensa, a aventura e o prazer do contato com a natureza também estão ao alcance de deficientes físicos, visuais, auditivos e outras pessoas com necessidades especiais. Bastam algumas adaptações, boa vontade dos operadores de ecoturismo e um pouco de coragem. Na verdade, o treinamento para enfrentar obstáculos faz parte do cotidiano dessas pessoas nos ambientes urbanos, normalmente despreparados para assegurar seu acesso e autonomia. Para mostrar a possibilidade da inclusão de deficientes físicos nos roteiros radicais de lazer e turismo, será lançado hoje, em São Paulo, o Projeto Cadeirantes, uma Aventura sobre Rodas. Trata-se de uma expedição de portadores de deficiência física que usam cadeiras de rodas por 50 cidades e 19 unidades de conservação brasileiras, nos Estados de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Tocantins, Bahia, Piauí e Minas Gerais. O roteiro total tem 12.800 quilômetros e inclui a realização de encontros e atividades radicais - trekking, rafting, rapel, mergulho, pesca, entre outras opções -, com apoio e participação de portadores de deficiência de cada comunidade. Os organizadores estimam que o projeto custará cerca de R$ 500 mil. Guia - Os oito integrantes permanentes da Equipe Cadeirantes, mais dois a três convidados para alguns trechos do roteiro, vão avaliar a acessibilidade nas cidades e destinos ecoturísticos visitados e reunir informações e contribuições da população local, também sobre os acessos disponíveis para os deficientes. Os dados servirão de base para um guia turístico especial e um documento pró-acessibilidade, que contemplará também as necessidades de portadores de outras deficiências, a serem incluídos em expedições futuras. Estima-se que, no Brasil, existam cerca de 20 milhões de pessoas portadoras de deficiência. A cada dia, 500 pessoas tornam-se deficientes, vítimas da violência urbana, passando a enfrentar preconceito. A saída da primeira expedição, ainda na fase de negociação de patrocínios, está prevista para agosto. O projeto é da Gecko Socioambiental e a organização, da Associação Acessível, cujo objetivo é mobilizar e conscientizar a sociedade sobre os direitos dos portadores de deficiência. ´Incapacidade´ - "Acreditamos que a inacessibilidade gera a incapacidade. As pessoas com necessidades especiais freqüentemente se deparam com barreiras culturais, físicas ou sociais, que impedem sua participação na vida econômica e nas opções de lazer, disponíveis para o resto da população", diz a artista plástica Adriana Braun, de 26 anos, que usa uma cadeira de rodas desde que sofreu um acidente de carro. "A sociedade deveria elevar o nível de expectativa em relação às pessoas com deficiência, oferecendo também oportunidades de formação, profissionalização, cultura e lazer, e não apenas aposentadoria precoce e assistência pública." Adriana idealizou o Projeto Cadeirantes depois de percorrer uma trilha até uma cachoeira, considerada difícil, no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), no sul de São Paulo. Com a ajuda dos guias do parque e de companheiros de acampamento, ela passou a se interessar por esportes radicais e foi descobrindo adaptações e dicas, que facilitam as práticas. Já experimentou rapel, bóia-cross e rafting. "Não é simples nem dá para modificar as trilhas, mas com disposição e um pouco de atenção dos guias, é possível fazer muita coisa", acredita Adriana. "Em alguns lugares, a cadeira de rodas pode ser substituída por um cavalo, em outros, preciso ser carregada." A artista plástica diz que no bóia-cross teve de amarrar o pé. "Então, a atenção precisou ser maior, para o caso de a bóia virar. No rapel, só dá para fazer negativas, porque não posso empurrar as paredes de pedra com os pés", explica. "Dá para buscar muitas soluções, depende da atitude do cadeirante e também de quem está acompanhando."

Agencia Estado,

14 de julho de 2003 | 07h32

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