Café com responsabilidade socioambiental

O pioneirismo na certificação de sua produção de cafés especiais já está rendendo novos contratos de exportação para a Ipanema Agrícola Ltda, embora a promessa de diferencial nos preços ainda não tenha se concretizado. A empresa, detentora da marca Ipanema Coffes e maior produtora individual de café do Brasil, fechou negócios com a Delta, maior torrefadora de café de Portugal, para atender a uma linha especial de comercialização, chamada ?Sustentabilidade das Origens?. O objetivo da Delta, nesta linha, é comercializar cafés de antigas colônias portuguesas, produzidos de modo sustentável, com certificação independente de boas condições sociais, trabalhistas, ambientais e culturais nas fazendas. A idéia inicial era usar o selo apenas com cafés de Timor e Angola, mas a certificação européia, obtida em junho de 2002 pela Ipanema, abriu as portas também para o café brasileiro. A certificação socioambiental para fazendas de café ainda é muito recente e está se firmando em todo o mundo. Um primeiro código de conduta foi criado, em 2000, para fazendas da Guatemala, pela organização não governamental holandesa Fundación Utz Kapeh (expressão indígena maia k`iche`, que quer dizer ?bom café?). O código enfoca as condições de saúde e trabalho dos funcionários, conformidade com a legislação e preocupação com a sustentabilidade social, ambiental e cultural, dentro da empresa e nas comunidades de seu entorno. Seus termos foram rediscutidos e adaptados às condições brasileiras, a partir da certificação da Ipanema, e desde então vem servindo de base para novas certificações, em cerca de 12 países produtores de café, entre os quais estão Colômbia, Indonésia, Costa Rica, Peru, Vietnã e Uganda. No Brasil, por enquanto, 8 fazendas de 4 empresas produtoras de cafés especiais, foram certificadas. A Ipanema ainda obteve, paralelamente, o selo Eurep Gap, da União Européia, que certificava boas práticas agrícolas e de gestão ambiental de hortigranjeiros e recentemente foi estendido também ao café.Mercado seletivo?Os consumidores europeus estão interessados nas condições sanitárias dos produtos que consomem. Eles exigem uma identificação de origem e, em resposta a esta demanda, os distribuidores procuram produtos certificados como garantia?, resume Washington Luiz Alves Rodrigues, diretor superintendente da Ipanema, que estima ter feito um investimento de US$150 mil na certificação. ?Para nós, o processo de certificação foi rápido ? seis meses - e não exigiu muitas adaptações, porque já tínhamos um programa de qualidade total na produção e um grande envolvimento com as comunidades do sul de Minas, onde estão nossas fazendas?. Para uma empresa que parte do zero, a certificação pode custar duas vezes mais e demorar de 2 a 3 anos.A Ipanema tem 3 núcleos de produção, nos municípios mineiros de Alfenas e Conceição do Rio Verde. Com uma área plantada de 3.500 hectares, produziu, na última safra, 113 mil sacas de café, 100% arábica, e integra o restrito grupo de 40 empresas da Associação Brasileira de Cafés Especiais, em cujo mercado tem 15% de participação. Aproximadamente 85% de sua produção é exportada para os Estados Unidos (para a cadeia Starbruck?s), Japão, França (Hediard), Espanha (Companhia Mundial del Cafe), Alemanha, Holanda, Dinamarca e Portugal. A certificação não é de produto orgânico, mas de origem e qualidade socioambiental.Desde 1996, o programa de qualidade total da empresa já apontava a necessidade de uma gestão ambiental, social e cultural, ?mas ainda fazíamos isso de modo desarticulado e a certificação levou a uma sistematização, integrando tudo?, continua Rodrigues. Para ele, embora ainda seja necessário educar o consumidor - de modo que ele passe a exigir responsabilidade socioambiental das empresas - as certificações poderão vir a ser o diferencial, garantindo a sobrevivência empresarial, num mercado internacional, que tende a encolher e se tornar cada vez mais seletivo.Segurança e voluntariadoPara administrar a certificação e cuidar das auditorias, das quais depende sua manutenção, a Ipanema criou um comitê de gestão socioambiental, integrado por 7 funcionários. No total, a empresa tem 180 funcionários administrativos, 400 trabalhadores fixos da área agrícola e 2 mil a 2,5 mil temporários, contratados para a colheita, de abril a outubro. O maior desafio do comitê de gestão é garantir o treinamento e padrão de qualidade dos funcionários temporários, sobretudo em questões de segurança, uso de equipamentos de proteção, cuidados com o meio ambiente, saúde e higiene.?No começo precisamos a recorrer a advertências e mandar voltar quem não estivesse de bota, luvas, bonés, óculos de proteção ou deixasse de seguir as regras, agora já virou rotina?, conta Fernando Luiz Vieira, gerente administrativo da empresa. Além da insistência no treinamento e fiscalização, muitas das mudanças de comportamento são decorrentes de ações difusas, sociais e culturais, realizadas junto às comunidades da região. Não só nos moldes tradicionais de filantropia empresarial, mas com um forte apoio de um voluntariado, organizado pelo comitê de gestão.?Temos um cadastro de voluntários, do qual participam de 45 a 50 funcionários, que se dispõem a fazer desde tarefas simples, como capinar o terreno de uma brinquedoteca, até a limpeza da represa de Furnas, realizada no último mês de dezembro?, explica Maria Goretti Ferreira Parada Oliveira, responsável pela gestão socioambiental. O estímulo ao voluntariado, há dois anos, excedeu os limites da empresa e foi para a praça de Alfenas, onde o comitê organizou uma espécie de feira, na qual todas as instituições sociais, assistenciais e ambientais do município expuseram suas propostas e necessidades, cadastrando voluntários dispostos a contribuir com trabalho.No processo de certificação, propriamente dito, o comitê também lançou mão de parcerias, como a estabelecida com a Universidade Federal de Lavras (UFLA) para orientar o reflorestamento com essências nativas nas reservas legais e áreas de preservação permanente das fazendas e o levantamento da fauna local.?Mais do que simples marketing, o conjunto de ações e a postura da Ipanema mostram que a gestão socioambiental deve ser um conceito político corporativo?, comenta o engenheiro e consultor da certificação, Soren Knudsen, da Sustainable Solutions. ?A gestão integrada agrícola precisa incluir o econômico, o social, o ambiental e o cultural, senão nada anda para frente?. Segundo ele, o mais importante, num processo de certificação deste tipo, é procurar sempre eliminar as perdas, identificar onde há desperdícios e garantir: a saúde e a segurança operacional, senão não há condições de trabalho; a boa qualidade ambiental, senão não haverão recursos no futuro; e o retorno financeiro.

Agencia Estado,

03 de abril de 2003 | 17h50

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.