Calendário gregoriano completa 420 anos

A rotina imposta pelo calendário raramente é questionada, mas neste fim-de-semana faz 420 anos que o papa Gregório XIII instituiu uma nova forma de contar o tempo. Em 24 de fevereiro de 1582, o papa estabeleceu uma reforma crucial com a sua bula Inter Gravissimas, através da qual tentava corrigir o erro existente entre o ano solar (intervalo de tempo que a Terra leva para transladar em redor do Sol) e o calendário juliano (em vigor na época). O calendário vigente hoje no mundo ocidental é ainda o proveniente dessa reforma, que coincide o início da contagem do tempo, o ano 1, com o que se supunha ser o nascimento de Jesus Cristo. Antes da criação do calendário gregoriano vigorava o calendário juliano, instituído pelo imperador Júlio César (100-44 aC), que adotava a época da fundação de Roma (753 aC) para o início da contagem do tempo. O calendário juliano, assim como o atual calendário, baseia-se no aparente movimento anual do sol em relação à Terra. A duração do ano deveria coincidir com o tempo que o Sol demora para dar uma volta completa em torno da esfera celeste, isto é, retornar ao mesmo ponto no céu em relação às constelações do Zodíaco. Assim, o ano padrão juliano era formado por 365 dias, dispostos em 12 meses. Como a trajetória do Sol é completada em um pouco mais que 365 dias, foi introduzido a cada quatro anos o ano bissexto, composto por 366 dias. Seriam bissextos os anos divisíveis por 4, com o dia extra a ser colocado após o dia 23 de fevereiro. No entanto, os cálculos sobre a duração do ano não estavam completamente corretos, já que indicavam um ano de 365,25 dias (365 dias e 6 horas), diferindo do ano trópico (solar) em mais 11 minutos e 14 segundos. A diferença representa um excesso de 3 dias em 400 anos. Por isso, no século XVI, este pequeno erro tinha-se já acumulado em 11 dias, estando o calendário demasiado adiantado em relação ao ano solar. Por exemplo, o equinócio da Primavera de 1582, que deveria acontecer a 21 de março, aconteceu em 11 de março, uma defasagem temporal com conseqüências nas práticas religiosas cristãs, uma vez que este equinócio fixava a data da Páscoa. Para resolver o problema, o Papa Gregório XIII decretou, em 1582, uma bula que estabelecia a modificação do calendário, seguindo a orientação de vários astrônomos católicos, entre os quais Luigi Giglio. A bula atribuía ao ano uma duração mais exata de 365,2425 dias (365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos), excedendo a realidade em cerca de 3 dias em cada 10.000 anos (o ano solar tem 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos). O calendário adota igualmente uma regra para fixar a Páscoa, de modo a que ela nunca caia depois de 25 de abril. Assim, a data comemorativa (a base para o cálculo de todas as outras festas móveis religiosas do calendário cristão) comemora- se no primeiro domingo de Lua cheia do outono, no Hemisfério Sul. Para corrigir novamente os problemas das frações, as regras ditavam que os anos passariam a ser bissextos apenas quando divisíveis por quatro, mas não por 100. No entanto, se fossem divisíveis por 400, voltariam a ser bissextos (1996 e 2000 foram bissextos, mas 1900, não). Outra das reformas impostas passou pela alteração da contagem dos dias do mês, que passou a ser caracterizada por números cardinais (1,2,3) e não pela ordenação romana de calendas, nonas e idos. Os 11 dias acumulados foram suprimidos, tendo-se considerado o dia seguinte a 4 de outubro de 1582 como a data de 15 de outubro de 1582, para que o início de cada estação do ano ocorresse na época certa. A aprovação da reforma foi imediata (4 de outubro de 1582) em Portugal, Espanha e Roma. França e Holanda adotaram o novo calendário em dezembro de 1582, a Áustria em 1583, os Estados Católicos da Alemanha e Suíça em 1584 e a Polônia, em 1586. No entanto, por motivos históricos, religiosos ou culturais, a passagem para o novo calendário não foi tão imediata em outras regiões do mundo. Na Grécia, por exemplo, o calendário gregoriano só foi aprovado em 1923, o mesmo acontecendo na Turquia. Aliás, ainda hoje, apesar de o calendário gregoriano ser o adotado em quase todo o mundo, coexistem com ele outras formas de contar o tempo, como o calendário muçulmano, o judeu ou o iraniano.

Agencia Estado,

23 de fevereiro de 2002 | 17h17

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