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Calo versus sola de sapato

Ao usarmos sapato, trocamos proteção por menor controle sobre a interação com o solo

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2019 | 03h00

O sapato mais antigo tem 8 mil anos, mas é provável que nossos ancestrais já protejam os pés há 40 mil anos. Como andamos sobre os pés faz mais de 1 milhão de anos, ninguém questiona que o sapato é uma invenção recente. Antes de dispormos do sapato, nossos pés eram protegidos pelos calos, um produto da seleção natural que nos serviu por milhares de séculos e ainda protege os pés de muita gente. Hoje, muitos calos nos protegem das agruras causadas por sapatos vagabundos. Sapatos baratos surgiram durante a Revolução Industrial e se tornaram populares nos últimos 200 anos.

O calo é uma estrutura muito sofisticada, produzida sob demanda, e cujas características dependem de nossa necessidade. Quando o estrato basal da epiderme (a parte viva da pele mais próxima da superfície) é irritado pelo atrito, ou pelo contato constante com o solo, suas células se dividem, produzem uma grande quantidade de queratina e morrem, formando uma espécie de esponja. 

Em seguida, mais células se formam, morrem e vão acumulando sob a camada anterior. O resultado é uma camada de queratina morta, constantemente erodida pelo contato da sola do pé com o chão. Mas, ao mesmo tempo que ela é erodida, novas camadas se acumulam na sua base, garantindo a reposição.

Mais atrito e essa camada aumenta de espessura; com menos atrito, a camada diminui de espessura. Se formos comparar com uma sola de sapato, é fácil ver como o sistema é sofisticado.

Diferentemente da sola do sapato, o calo mantém a espessura mesmo após uso prolongado. Além disso, sua espessura varia segundo a necessidade. Para obter o mesmo efeito, temos uma coleção de sapatos com diferentes tipos de sola no armário e ainda compramos novos quando a sola gasta. Como a formação e a manutenção do calo dependem de um estímulo constante, e de certa irritação na sola do pé, inventamos o sapato para nos livrar do incômodo.

Mas o pé não é só pele, osso, músculo e calo. Nossos pés têm uma coleção de terminações nervosas e órgãos sensoriais que detectam desde o leve toque de um dedo fazendo cócegas, passando por leves mudanças de pressão sobre a sola dos pés, até as grandes mudanças de pressão que ocorrem quando pisamos ou retiramos o pé do chão.

Sabemos que nossos sapatos, mesmo os mais finos, alteram ou mesmo bloqueiam a detecção pelo sistema nervoso desses estímulos (tente fazer cócegas no pé de uma pessoal calçada).

Esse bloqueio dificulta a vida de nosso sistema nervoso central, que usa essa informação para detectar o tipo de piso em que andamos, sua temperatura e a pressão que exercemos ao trocar o peso de um pé para o outro. E até agora se acreditava que os calos tinham o mesmo efeito, bloqueando a chegada dos sinais aos sensores.

Foi para verificar se essa crença era verdadeira que um grupo de cientistas resolveu estudar os pés de 81 pessoas do oeste do Quênia. Nessa população, há pessoas que nunca haviam usado um sapato, pessoas que usavam sapato de forma intermitente e pessoas que sempre estavam calçadas. 

No primeiro experimento, tanto a grossura do calo quanto sua rigidez foram medidas com ultrassom, desses que usamos para ver crianças ainda no útero. As medidas foram feitas no calcanhar e na parte anterior do pé, abaixo do dedão. Como esperado, os resultados mostraram que os calos podem ser muito finos, menos de 1 milímetro, mas podem atingir até 3 milímetros nas pessoas que andam descalças. Além disso, quanto mais grosso o calo, mais rígida era a sola do pé, algo também já conhecido. 

A surpresa estava nos resultados obtidos quando pequenos vibradores foram postos na sola do pé dessas pessoas e várias frequências de vibração foram aplicadas. A pessoa era instruída a avisar ao pesquisador quando sentisse a vibração. Vibrações de baixa intensidade não são sentidas, mas, à medida que você aumenta a intensidade, a pessoa passa a sentir o movimento. 

A grande novidade é que a presença ou ausência de calo e mesmo sua grossura não afetam a sensibilidade dos pés dessas pessoas. Ou seja, pessoas sem calos ou com calos muito grossos percebem as vibrações e a pressão vinda do solo do mesmo modo. Os cientistas acreditam que isso se deve ao fato de o calo, apesar de grosso e rígido, estar em íntimo contato com a epiderme. Assim, transmite perfeitamente os sinais do mundo exterior para nosso sistema nervoso. Isso não ocorre quando usamos sapatos.

A conclusão é que calos, diferentemente de sapatos, não sacrificam a sensibilidade do pé ao proteger sua superfície. Pessoas calçadas têm a sola protegida, mas têm sua sensibilidade alterada. Já pessoas com calos grossos também têm a sola do pé protegida, sem que isso mude a sensibilidade. Como sabemos que esses sinais nos ajudam no equilíbrio e na distribuição de peso, os cientistas concluíram que, ao usarmos sapato, trocamos proteção por um menor controle sobre nossa interação com o solo. Agora, eles querem entender como essa falta de informação afeta o equilíbrio e o andar.

Esse estudo comprova que nossas tecnologias não chegam aos pés das soluções criadas pelo processo evolutivo. Sem dúvida os calos são melhores que as solas de sapato.

MAIS INFORMAÇÕES: FOOT CALLUS THICKNESS DOES NOT TRADE OFF PROTECTION FOR TACTILE SENSITIVY DURING WALKING. NATURE

*É BIÓLOGO

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