Caminho das Tropas quer conter invasão de <i>Pinus elliottii</i>

Os chamados Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, estão desaparecendo à sombra de florestas de pinheiros exóticos (Pinus elliottii), plantadas para suprir os mercados de madeira e papel. O florestamento surge como uma opção de renda imediata para os produtores rurais, mas custa caro aos ecossistemas, ocasionando graves perdas de biodiversidade e alterações na disponibilidade de água, sobretudo de nascentes e pequenos cursos, no alto da serra gaúcha. Para conter a invasão dos pinnus, pesquisadores e ambientalistas uniram-se ao historiador Sebastião Fonseca, numa campanha que pretende recuperar e proteger, para fins turísticos, as paisagens do antigo Caminho das Tropas, por onde as mulas criadas no Rio Grande do Sul eram levadas até Sorocaba, no interior de São Paulo, para o trabalho nos engenhos de açúcar e nas indústrias nascentes.?O Projeto Caminho das Tropas não é uma volta ao passado, mas uma base para o futuro?, resume a jornalista Patrícia Soares Viale, que se dedica à produção de cartilhas para crianças e agricultores, onde se explica a importância da biodiversidade campestre e se colocam algumas alternativas econômicas à plantação de pinnus. ?A vocação da região é turística e o turismo rural, assim como os esportes de aventura e as cavalgadas, já vem se desenvolvendo, mas, sem os campos, esta paisagem que atrai os turistas vai se descaracterizar?, complementa o economista Cilon Estivalet, coordenador do programa de educação ambiental na Metroplan, do governo gaúcho, e fundador da Associação Ecológica Canela-Planalto das Araucárias (Assecan). Para assegurar o desenvolvimento sustentável do turismo e fazer frente à expansão das florestas plantadas, eles trabalham num zoneamento municipal e em projetos de leis e normas restritivas aos pinnus. ?Existe uma resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), por exemplo, que prevê a realização de estudos de impacto ambiental em culturas que alterem mais de 100 hectares de vegetação nativa, mas isso nunca foi exigido?, diz Estivalet. ?Também discutimos a inclusão de restrições nos planos diretores dos municípios mais afetados, como São José dos Ausentes, onde a proposta é limitar em 10% do território municipal o total de florestas plantadas?. De acordo com um levantamento florestal realizado pelo estado, no Rio Grande do Sul,o plantio de florestas exóticas superou 100 mil hectares, nos últimos 18 anos.Os problemas decorrentes desta substituição dos campos nativos por florestas exóticas não se limitam à perda da biodiversidade, que deriva basicamente do sombreamento do solo e abafamento das plantas mais baixas pela camada de agulhas (folhas) mortas, que se forma embaixo das árvores. De acordo com a engenheira florestal e doutora em conservação da natureza, Silvia Ziller, presidente do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, há também a redução na disponibilidade da água e a perda de controle sobre a proliferação dos pinnus.?Uma árvore consome mais água do que uma planta rasteira ou um arbusto e isso pode ser problemático numa região como a serra gaúcha, que têm uma estação marcada pela baixa disponibilidade de água, no caso, o inverno, sobretudo quando as florestas são plantadas em áreas de nascentes e pequenos cursos d?água, que podem secar?, afirma. Silvia ainda ressalta a importância de um efeito pouco comentado da plantação indiscriminada de pinnus, que é a invasão da espécie em áreas adjacentes. A dispersão de sementes de pinnus se dá com o vento e a topografia da serra gaúcha, aliada a ventos constantes, facilita a perda de controle, transformando o pinnus numa espécie invasora.?Uma única árvore de pinnus, quando madura, dá origem a 100 outras árvores, que a cada 5 anos se multiplicarão, numa progressão exponencial?, continua. ?Além disso, uma árvore bem localizada, no topo de um morro, pode lançar sementes a muitos quilômetros de distância?. A literatura técnica internacional, segundo a especialista, menciona sementes que viajaram até 40 km. Por isso, junto com outros técnicos e pesquisadores, Silvia se reúne com representantes governamentais e as associações paranaense, gaúcha e sul brasileira de reflorestadores, durante esta semana, para discutir medidas conjuntas de manejo para contenção da invasão de pinnus e outras espécies exóticas igualmente agressivas. Entre as propostas colocadas na mesa para discussão estão medidas de mitigação, como a formação de quebra ventos em volta dos plantios de pinnus e a avaliação da direção dos ventos e condições de terreno, prévia ao plantio. ?Jamais deveria ser plantada uma floresta de pinnus a sudoeste de um parque como o Aparados da Serra, pois é de lá que sopram os ventos predominantes no inverno, quando as sementes são lançadas ao vento?, exemplifica Silvia Ziller. ?Isso deve ser considerado nas certificações florestais, que têm sido concedidas a despeito destes efeitos negativos?.

Agencia Estado,

18 de agosto de 2003 | 22h20

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.