Campanha em defesa de mamíferos aquáticos vai ao shopping

Sensibilizar famílias para deixar de capturar mamíferos aquáticos e entregar os filhotes mantidos em residências, muitas vezes em condições inadequadas. Estes são dois dos principais objetivos da campanha ?Ampare esta idéia?, que a Associação Amigos do Peixe-Boi (Ampa) promove nestas férias escolares, por meio de uma série de atividades dirigidas a crianças. Em dezembro, a programação desenvolveu-se num parque urbano de Manaus, o Parque do Mindu. Em janeiro, a partir do próximo dia 15, a campanha chega ao Shopping Amazonas, o principal shopping da capital estadual. Apesar de ilegal, a caça a algumas espécies de mamíferos aquáticos ainda prossegue, assim como a prática de guardar os filhotes para criar em casa ou dar de presente, quando a mãe é morta. O peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) é a espécie mais visada. Sua carne é muito apreciada e ainda muito consumida na Amazônia. Nesta época do ano, as fêmeas ficam bastante vulneráveis, porque se dirigem a águas rasas para dar à luz e amamentar a cria recém-nascida.?Filhotes recém-nascidos às vezes são encontrados descendo os rios ?de bubuia? (ao sabor da correnteza) enrolados em restos de capim ou chegam a seguir as sombras de canoas, confundindo as embarcações com suas mães?, conta a veterinária Márcia Picanço, presidente da Ampa. Tais filhotes provavelmente não foram vistos pelos caçadores, porque estavam escondidos em touceiras de capim, quando suas mães foram abatidas. Se são encontrados, costumam ser vendidos ou doados para pessoas influentes, em cidades do interior, enquanto os espécimes adultos são comercializados como carne, mixira (carne cozida na própria gordura) e torresmo, em feiras e mercados. ?Uma realidade que queremos mudar?, acrescenta Márcia.Sério impactoComo o peixe-boi marinho, a espécie amazônica também se reproduz apenas a cada 3 anos e o filhote é amamentado por 2 anos, em média, de forma que o abate das fêmeas reprodutivas, em especial, tem sérios impactos sobre a população de uma espécie já considerada ameaçada de extinção. Em campanhas anteriores - no Jari, no rio Purus e lago Badajós, no rio Solimões ? os ambientalistas da Ampa reuniram vários relatos de abate de peixes-boi de 60 kg a 200 kg, medindo em torno de 1,4 a dois metros. ?São filhotes e jovens, abatidos antes de atingir a idade adulta?, lamenta Márcia.Ariranhas (Pteronura brasiliensis) e lontras (Lutra longicaudis) também costumam ser capturadas, enquanto filhotes, para virar mascotes. Mas a domesticação não é fácil e os filhotes logo crescem e tornam-se incômodos, com seus dentes e unhas afiados. Desde que a campanha da ong foi lançada, há pouco mais de um mês, já foram devolvidos 3 filhotes de ariranha e um de lontra, encaminhados ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).?A lontra veio de Roraima, foi tirada do ninho. A história das ariranhas ainda não foi esclarecida. Na maioria das vezes, quem devolve não quer contar de onde tirou o animal, diz que achou perto de alguma trilha ou recebeu de outra pessoa. Só depois de algum tempo é que ficamos sabendo como foi. Quem entrega voluntariamente não é enquadrado na Lei de Crimes Ambientais pelo Ibama, mas quem é pego em flagrante, sim?, acrescenta a veterinária, que também procura conscientizar sobre a necessidade de se criarem unidades de conservação em áreas de reprodução e alimentação, assim como conhecer o comportamento dos animais em cativeiro, para posteriormente pensar em reintrodução no ambiente natural.SensibilizaçãoOs filhotes resgatados ou devolvidos são encaminhados para os dois criadouros oficiais do Amazonas, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, e na Manaus Energia, junto à hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, onde já estão abrigados 18 peixes-boi: 4 adultos, 10 jovens e 4 filhotes.Segundo Márcia Picanço, embora não sejam suficientes, as campanhas ajudam a sensibilizar a população ribeirinha e a reunir informações sobre a área de ocorrência dos mamíferos aquáticos. A última grande campanha da entidade aconteceu em fevereiro e março de 2000 e atingiu cerca de 8.000 pessoas de 90 comunidades, de alguns trechos dos rios Amazonas, Solimões, Purus, Japurá e Uatumã.Os recursos para esta campanha de férias ? da ordem de R$ 30 mil ? vieram de doações de empresas privadas e do Ibama. A ong agora está levantando recursos para uma segunda fase, de educação ambiental nas escolas, a ser iniciada após a volta às aulas.

Agencia Estado,

06 de janeiro de 2003 | 14h12

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