Campinas usa satélites para emergências e diagnósticos

Um esquema de emergência, com o uso de imagens do satélite israelense Eros, permitiu à prefeita de Campinas, Izalene Tiene, lidar com as conseqüências da "enchente do século", ocorrida no município, no último dia 17 de fevereiro. E o retrato do desastre, devidamente geocodificado, agora, serve de base para um balanço dos impactos sobre o meio ambiente e os equipamentos urbanos, além de subsidiar um plano de prevenção e alerta para eventos futuros. Com a visão abrangente e, ao mesmo tempo, detalhada do satélite, cobrindo todo o município, foi possível estabelecer prioridades no atendimento e recuperação de pontes, vias e adutoras danificadas, já a partir da manhã seguinte à inundação, graças à adaptação feita pela Embrapa Monitoramento por Satélite (CNPM), dos mapas temáticos, que vinham sendo elaborados para a Agenda 21 Municipal, desde o final de 2002. CNPM/EmbrapaPontos críticos da inundação de Campinas, no dia 17/2/2003. Em verde, as adutoras comprometidas ou destruídas. Em vermelho, eixos de drenagem alagados ou afetados por erosão, devido a enxurradas. Em rosa, áreas de alagamentos menos intensos. Em violeta, inundações intensas, com danos materiais e, em amarelo, enchentes com correnteza forte, danos materiais e vítimas.?O satélite Eros tem uma resolução de 1,80 metros, o que já permite distinguir se as áreas públicas ou quintais e jardins são arborizados ou não, se estão calçados, asfaltados, enfim, permite determinar qual o grau de impermeabilização dos solos, conforme o uso atual?, explica Evaristo Eduardo de Miranda, coordenador do pesquisa do CNPM. Sua equipe já tinha prontos, para a Agenda 21, os mapas da rede hidrográfica, das ruas e logradouros públicos e da rede de adutoras da Sanasa, além da digitalização dos tipos de solo, com base em cartas do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). ?À medida em que foram chegando informações sobre áreas alagadas, da Defesa Civil, da Companhia de Água e Saneamento (Sanasa), da Companhia de Trânsito (Emdec) e da mídia, fomos geocodificando tudo, de forma a permitir uma visão global da situação, enquanto os atendimentos ainda eram feitos?, acrescenta. Isso gerou um mapa com a dimensão real do desastre, classificado de acordo com a intensidade dos estragos.A chuva da tarde do 17 de fevereiro (140mm), de fato, foi muito acima da média, superando todos os recordes históricos para o mês de fevereiro, desde que existe medição pluviométrica local, há 120 anos. O esperado para todo o mês de fevereiro, em Campinas, costuma ser 190mm. Ou seja, choveu numa tarde o equivalente a 74% do que deveria chover em todo o mês. De acordo com os dados do CNPM, as áreas inundadas somaram 3.126 hectares, dentro da cidade, ou 12,5% da área urbana. Alguns pontos de alagamentos já eram velhos conhecidos da Defesa Civil, mas outros surpreenderam, conjugando a intensidade extraordinária da chuva com a impermeabilização recente dos solos, devido à expansão urbana desordenada. CNPM/EmbrapaQuatro níveis de impermeabilização dos solos de Campinas, conforme levantamento feito com o satélite Eros.Agora, a sugestão da Agenda 21 Municipal, ainda a ser lançada, é discutir formas de reverter a impermeabilização e reduzir os riscos de desastres semelhantes, entre as quais estariam o oferecimento de descontos no IPTU, nas construções onde o verde for valorizado e formas de punição para as construções mais impermeabilizadas; incluir a exigência de uma proporção de área verde mínima para os novos empreendimentos imobiliários, na Lei Orgânica do município, e a construção de cisternas para captação da água das chuvas, em construções com área superior a determinados limites, a exemplo do que já vem sendo feito em São Paulo.?É importante lembrar, que determinados tipos de solo permitem um nível de impermeabilização maior do que outros, por isso vamos cruzar os dados sobre tipos de solo com os de uso atual?, observa Miranda. Nos solos arenosos, de modo geral, as águas de chuva infiltram mais rápido e, portanto, o grau de impermeabilização pode ser maior. Nos solos mais argilosos ou mais compactados, a infiltração é mais lenta, de modo que as áreas cobertas com vegetação ou com pisos permeáveis devem ser maiores. Tais fatores serão levados em conta na elaboração de um plano de prevenção e sistemas de alerta para enchentes futuras, que também utilizará imagens de satélite para subsidiar as políticas públicas específicas. CNPM/EmbrapaDetalhe da imagem de satélite, enfocando as áreas centrais de Campinas, mais impermeabilizadas.

Agencia Estado,

09 de março de 2003 | 18h25

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