GABRIELA BILO / ESTADAO
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Camundongos são tão irracionais quanto nós

Em vez de avaliar as chances futuras de sucesso (o que seria a atitude racional), nos deixamos influenciar pelo esforço passado, que não é nem recuperável nem um bom preditor do sucesso futuro

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 03h00

Nosso cérebro muitas vezes toma decisões irracionais. Um exemplo é a maneira como decidimos interromper certo tipo de tarefa antes de ter sucesso. Nesse tipo específico de tarefa, mesmo sabendo que o tempo ou a energia que já gastamos não vai alterar nossas chances de sucesso, temos a tendência de continuar insistindo. Em outras palavras, em vez de avaliar as chances futuras de sucesso (o que seria a atitude racional), nos deixamos influenciar pelo esforço passado, que não é nem recuperável nem um bom preditor do sucesso futuro.

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Esse fenômeno já foi muito estudado, mas a grande novidade é que agora os cientistas descobriram que ratos e camundongos se comportam da mesma maneira que seres humanos. Para fazer essa descoberta, os cientistas tiveram de bolar um experimento.

Imagine que você está com fome, só tem duas horas para almoçar, e se encontra na ponta de uma rua com diversos restaurantes. Chega à porta do primeiro e descobre que tem uma fila de 30 minutos. 

Pode entrar e esperar ou pode ir ao próximo. Se for perguntar para todos os restaurantes antes de decidir, vai gastar uma parte preciosa do tempo. Por outro lado, se entrar e ficar esperando, não vai saber se outros lugares têm filas menores. O que se observa em seres humanos é que, quando entramos na fila e gastamos os primeiros cinco minutos nela, temos a tendência de ficar, apesar da decisão não fazer sentido lógico. Essa tendência a dar um valor indevido ao que já foi gasto (“sunk cost”) pode ser medida avaliando o quanto nos desviamos do comportamento racional.

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Os cientistas construíram um aparato em que ratos e camundongos foram treinados para se alimentar vagando de um “restaurante” ao outro. Quando eles chegavam à frente de uma área de alimentação, uma campainha tocava indicando tempo de espera (pela frequência do som). Aí, o bicho podia ir em frente para outro restaurante ou entrar na espera. O animal ouvia, na espera, sons de frequência crescente, indicando quanto tempo ainda demoraria para a portinha abrir e o alimento aparecer.

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O experimento equivalente em humanos oferecia vídeos em vez de alimentos e a fome foi trocada pelo desejo de ser recompensado com dinheiro. Você escolhe entre diversas telas de computador (mostradas uma de cada vez). Na tela, aparece o tempo que demora para o vídeo baixar (a espera). Pode-se apertar a tecla “baixar” e entrar na “sala de espera” ou mudar de tela, para ver se encontra um “restaurante” em que o vídeo baixe em menos tempo. Mesmo enquanto o vídeo está baixando (você pode acompanhar a porcentagem já baixada), é possível mudar tela (ou restaurante). 

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Em suma, o experimento é quase exatamente igual para ratos, camundongos e humanos. Os cientistas observaram como os três se comportavam. Os observados iam de um restaurante ao outro, procurando aquele com menos fila. Seu comportamento era exatamente o esperado, se a decisão fosse tomada por um computador programado para otimizar a escolha.

Por outro lado, quando os camundongos, ratos ou seres humanos decidiam entrar na fila de um restaurante, eles dificilmente revertiam a decisão. E a reversão ficava mais difícil quanto mais tempo ficavam na fila. Ou seja, a partir desse momento, eles deixavam de decidir com base na probabilidade de achar algo melhor no futuro e passavam a decidir com base no tempo em que já haviam passado na fila.

É fácil imaginar as diversas situações em que seres humanos agem com base nesse tipo de julgamento irracional. Desde a dificuldade de vender ações que temos faz muito tempo até a dificuldade de desfazer longos casamentos e namoros. É claro que em muitos casos a decisão é mais complexa, mas esse nosso desvio mental da racionalidade opera constantemente.

O que intriga cientistas é porque esse desvio da racionalidade surgiu e sobreviveu em espécies tão distantes como um camundongo e um ser humano. Provavelmente esse tipo de desvio deve trazer consigo alguma vantagem, ou já teria sido eliminado na evolução. Quando essa razão for descoberta, saberemos por que é melhor nos comportarmos de maneira irracional. Até lá é bom lembrar que quando se está na lista de espera de um restaurante ainda vale a pena procurar outro. É uma má noticia para donos de restaurante.

MAIS INFORMAÇÕES: SENSITIVITY TO “SUNK COSTS” IN MICE, RATS, AND HUMANS. SCIENCE, VOL. 361, PÁG. 178 (2018)

*É BIÓLOGO

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