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Canções, genética e cultura

Toda música cantada segue alguns poucos padrões, que podem ser reconhecidos

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2019 | 05h00

Um dos princípios básicos da Biologia é que todas as características de um ser vivo (seu fenótipo) são produto da interação dos genes (genótipo) com o meio ambiente. Vem daí a equação fenótipo=genótipo+ambiente. Muitos de nossos fenótipos dependem pouco do meio ambiente, como o número de dedos. Já outros fenótipos, como a velocidade com que corremos, dependem tanto de nosso genótipo (tamanho das pernas) quanto do ambiente (quanto treinamos). Um terceiro grupo de fenótipos é determinado predominantemente pelo meio ambiente, como a língua: qualquer criança criada na Itália aprende a falar italiano. 

Nos últimos cem anos, biólogos têm demonstrado que há um componente genético mesmo em características aparentemente determinadas primordialmente pelo ambiente. O caso mais conhecido é o trabalho do linguista Noam Chomsky e seus colaboradores. Eles demonstraram que as línguas faladas nas mais diversas culturas possuem estruturas comuns compartilhadas por toda a população.

Agora, cientistas usaram esse mesmo tipo de análise para estudar a música produzida por centenas de culturas. A análise foi restrita à música cantada e a conclusão é similar: apesar da enorme diversidade de canções produzidas em culturas, como a europeia, índios brasileiros, tribos africanas e populações da Ásia, toda a música cantada segue alguns poucos padrões, que podem ser facilmente reconhecidos. Tão interessante quanto as conclusões é a maneira como o estudo foi feito. 

Foram estudadas 315 sociedades espalhadas pelo planeta. Toda a bibliografia sobre a música dessas sociedades, como em que ambiente a canção é cantada, por quem, durante qual cerimônia, a idade de quem canta e a audiência, foi colocada em um banco de dados. Um segundo banco compilou gravações das canções juntamente com anotações. Todas as canções foram transcritas e as características musicais (ritmo, chave, densidade de notas, intervalo modal) identificadas. Os dois bancos de dados podem ser acessados e as músicas, ouvidas (vale a pena: themusiclab.org/nhsplots).

Analisando o primeiro banco, foi possível demonstrar que há quatro tipos de música em todas as sociedades: as que se referem ao amor, as executadas em danças, as de ninar e as de cura, usadas em rituais médicos/religiosos. Todas as culturas apresentam esses tipos. Além disso, cada uma das canções pode ser classificada quanto a intensidade expressiva em três eixos: um vai do secular ao religioso, outro do informal ao formal e um terceiro, da capacidade de excitar, de baixa à alta. Grande parte das canções pode ser classificada em um dos tipos e gradada nesses eixos. 

Uma primeira conclusão é que essa classificação serve para todas as canções e é uma característica intrínseca da música produzida em sociedades humanas. Além disso, os cientistas demonstraram que a diversidade musical intragrupo é maior do que a intergrupo. Ou seja, as músicas dessas 315 sociedades contemplam essa diversidade dentro de cada sociedade que, por sua vez, é maior do que a diferença encontrada entre as sociedades. 

O mais interessante é que, uma vez determinadas as características das canções, os cientistas pediram para leigos e experts ouvir as músicas sem informar sua origem ou contexto e classificar o tipo (amor, dança, ninar e cura) e seu grau de religiosidade, excitabilidade e formalidade. O impressionante é que esses voluntários acertam em mais de 70% dos casos a natureza e a função da canção cantada por pessoas de culturas com as quais jamais conviveram. 

Esse resultado confirma intuição expressa em 1935 pelo primeiro cientista a estudar as músicas de diferentes culturas, Henry Wadsworth Long-fellow: a música é a linguagem universal. Também sugere que, em algum nível, as canções são determinadas não somente pelo meio ambiente, mas, provavelmente, são em parte determinadas por características hereditárias. Se não fosse assim, como explicar que entendemos parcialmente a música produzida por qualquer ser humano? Esse estudo leva a um novo nível o estudo comparativo da música cantada. Não deixe de ouvir as canções no site do grupo de estudo!

MAIS INFORMAÇÕES: UNIVERSALITY AND DIVERSITY IN HUMAN SONG. SCIENCE 366 EAAX0869 (2019)

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