Cardeais cobram nº 2 do Vaticano na última reunião antes do conclave

Tarcisio Bertone esperou o último dia de discussões antes da eleição para responder às acusações e garantir que a gestão do Banco do Vaticano - que teve 23 milhões bloqueados - é transparente

Jamil Chade e José Maria Mayrink, Enviados especiais,

11 Março 2013 | 23h50

VATICANO - A crise no Banco do Vaticano gerou ontem uma cobrança ao secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone, por parte de vários cardeais no último dia de reuniões da Congregação-Geral do Colégio Cardinalício, antes do início do conclave, escancarando a divisão na Cúria. A partir desta terça-feira, os 115 cardeais com direito a voto se fecham na Capela Sistina e só saem após a escolha do sucessor de Bento XVI.

Os cardeais que abrem o conclave passaram os últimos dias debatendo os problemas da Igreja - entre eles o vazamento de documentos secretos do Vaticano que expuseram ao mundo intrigas entre membros da Cúria, denúncias de corrupção e irregularidades envolvendo o Banco do Vaticano.

Atacado pela falta de transparência da instituição e escândalos envolvendo a Justiça italiana, Bertone - o número 2 do Vaticano - esperou até o último dia de discussões na Santa Sé para dar uma resposta e garantir que o banco é "transparente". Mas se recusou a aceitar o pedido de um grupo de cardeais para prolongar os debates. A decisão foi a de dar por encerrada a discussão e passar à votação do novo papa - na prática, adiando qualquer decisão para o futuro pontífice.

O Instituto para Obras Religiosas - conhecido como Banco do Vaticano - foi tomado por uma série de escândalos que levou um tribunal a bloquear 23 milhões da Santa Sé. Não por acaso, cardeais como o brasileiro João Aviz usaram os encontros nos últimos dias para atacar a falta de transparência na instituição.

Segundo o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, Bertone explicou aos demais cardeais as regras internacionais sobre a transparência financeira e garantiu que reformas estavam sendo feitas. Mas foi bombardeado por perguntas de jornalistas sobre o motivo de o assunto ter voltado ao debate justamente no último dia de reuniões entre os cardeais.

Operações

O assunto escancarou a diferente visão das facções dentro da Cúria. De um lado, cardeais que pedem maior transparência, enquanto outros que defendem que a instituição permaneça da forma que está. Documentos obtidos pelo Estado apontam que a União Europeia tem sérias dúvidas sobre as operações do banco.

Durante a Guerra Fria, o banco teria sido amplamente usado para transferir recursos para a oposição em países no Leste Europeu. Hoje, uma das suspeitas é de que seria usado para financiar grupos em Cuba, China e regimes fechados. Mas é a suspeita de que o banco tenha sido usado pelo crime organizado na Itália o que mais preocupa os cardeais.

Em dezembro, o Banco da Itália acabou bloqueando operações de bancos europeus com o Vaticano por conta da falta de transparência. Como resultado, cartões de crédito passaram a não ser aceitos nas lojas do Vaticano e nos museus. A Santa Sé foi obrigada a buscar um novo acordo para permitir o uso de cartões, desta vez com uma empresa da Suíça, um paraíso fiscal fora da União Europeia e conhecida por ignorar vários dos critérios de transparência.

Nos últimos dias de seu pontificado, Bento XVI nomeou o aristocrata alemão Ernst von Freyberg como novo presidente do banco e deixou uma empresa suíça na administração das contas.

Conclave

A cobrança explícita a Bertoni por parte de muitos cardeais na véspera do início do conclave deu o tom de como será a eleição, a partir desta terça-feira.

Os 115 cardeais que elegerão o sucessor de Bento XVI, dos quais 5 brasileiros, sairão em procissão da Capela Paulina, no Vaticano, sob a presidência do cardeal Gianbattista Re, o mais velho da ordem dos bispos (os cardeais se dividem em cardeais-bispos, cardeais-presbíteros e cardeais-diáconos), em direção à Capela Sistina, cantando o Veni Creator Spiritus ("Vem Espírito Criador"), depois de terem cantado a Ladainha dos Santos.

Depois, os eleitores ocuparão seus lugares diante do quadro do Juízo Final, de Michelangelo, e farão o juramento para prometer, com as mãos sobre o livro dos Evangelhos, que vão escolher aquele que, em sua consciência, lhes parece o mais preparado para dirigir a Igreja. Depois do juramento, ouve-se as ordem Extra omnes ("Que saiam todos") e fecham-se as portas da Capela Sistina, onde permanecerão somente os 115 eleitores.

Começa aí o conclave, palavra que em latim significa com chave, fechado. Os cardeais fazem então uma curta meditação e eventualmente realizam o primeiro escrutínio ou votação. Eventualmente, porque a votação pode começar só na quarta-feira, o que é muito pouco provável, se os eleitores julgarem que seja necessário.

De qualquer maneira, será uma primeira votação quase de sondagem, na qual podem despontar alguns nomes como favoritos, mas dificilmente será eleito o papa. No total, cerca de 5,7 mil jornalistas foram credenciados para o conclave.

Jornalista que revelou ‘Vatileaks’ fica sem credencial

Enquanto cardeais clamam por maior transparência na Igreja, o Vaticano negou nesta segunda-feira a credencial para que o jornalista italiano que revelou os bastidores da Santa Sé possa cobrir o conclave. Gianluigi Nuzzi publicou em 2012 Sua Santidade, um livro com base em documentos secretos que mostraram corrupção, crimes e uma disputa de poder intensa dentro da Igreja.

As revelações causaram um verdadeiro tsunami no Vaticano, com a abertura de investigações sobre o vazamento dos documentos - o que passou a ser conhecidos como Vatileaks. Nuzzi atacou a decisão da Igreja. "É a opção pelo obscurantismo, longe da transparência e da liberdade de imprensa", escreveu no Twitter.

Nuzzi havia feito o pedido de credenciamento para atuar pelo canal de tevê La7. Nesta segunda-feira, recebeu uma carta do Vaticano negando seu passe, sem qualquer explicação. Jornalistas e entidades na Itália reagiram, pedindo que o Vaticano não dê o exemplo de coibir a imprensa, justamente no momento que se pede uma reforma da entidade.

A partir desta terça-feira, o Vaticano adota um "blecaute" para evitar que todo tipo de informação possa eventualmente vazar do conclave. Aparelhos foram colocados para impedir que haja recepção de celular no local e a internet foi cortada. Além dos 115 cardeais, cerca de 90 funcionários que estarão servindo o conclave - como médicos, enfermeiras, irmãs, cozinheiros e seguranças - tiveram de jurar que não revelarão nada do que ocorrerá na Capela Sistina.

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