Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Cardeais latinos não apoiam um mesmo nome

Eles dizem que não há solidariedade regional entre os 19 que participarão do conclave e, por isso, não devem votar em bloco

Jamil Chade , O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2013 | 05h00

Atualizada às 10h27

CIDADE DO VATICANO - Cardeais da América Latina são apontados como alguns dos principais favoritos para o conclave que está prestes a começar. Mas, em conversa com o Estado, vários deles deixam claro que não existe uma solidariedade regional entre os 19 nomes que votarão e orientações radicalmente opostas impedem qualquer tipo de aliança total na região para apoiar um nome único.

Nesta quarta-feira, o Estado revelou que os cinco cardeais brasileiros que estarão no conclave não haviam estabelecido um nome único para apoiar desde o início. Mas haveria um movimento para que, se um deles surgisse com força, haveria um voto em bloco.

Se uma aliança brasileira é possível, o cenário fica mais complicado em se tratando do resto do continente. "Há gente de extrema qualidade na América Latina para ser papa. Isso não resta dúvida", disse o cardeal de Buenos Aires, Jorge Bergoglio. "Mas não há qualquer conversa de uma solidariedade regional. Isso é muito difícil de ocorrer", indicou o argentino que, em 2005, chegou a ser considerado como papa.

"Haverá certamente um papa latino-americano. Só não sei se será agora", afirmou Francisco Javier Errazuriz, cardeal chileno, ao deixar nesta quarta-feira a audiência geral do papa Bento XVI.

"Não há como pensar em uma solidariedade. Apenas porque um nome aparece com mais força não significa que votarei por ele, se for um inútil", disse o cardeal que chegou a ser citado pelo New York Times como um dos religiosos que abafaram no passado casos de pedofilia. "No conclave, não é isso que vai pesar", insistiu, irritado.

Jaime Ortega, cardeal cubano, é outro que não vê espaço para uma aliança. "Os perfis são muito diferentes", declarou.

Para o presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno Assis, não há dúvida de que a região, que tem 40% dos católicos do mundo, deve ser considerada. "Mas talvez não encontremos um nome", disse, ao se preparar para seu primeiro conclave.

"Jesus não colocou limites geográficos sobre quem seria papa. O primeiro nem foi europeu", brincou. "Na América Latina temos uma Igreja nova, de 500 anos. Vai ser escolhido aquele que tenha condições para conduzir a Igreja nos tempos de hoje. Não por sua cor ou origem", disse. "Não entramos com um nome predeterminado", explicou. Sobre suas chances de ser papa, ele é claro: "Nenhuma".

Crise. O brasileiro admite que a Igreja vai dar início a um conclave "singular", com a existência de um papa emérito. Questionado sobre o silêncio da Igreja em relação aos abusos sexuais, o cardeal apontou para as ações "corajosas" de Bento XVI em lidar com essa realidade.

"Antes, nem sempre esses delitos eram conhecidos e ficavam ocultos", explicou. "Não se tinha informações suficientes", disse, admitindo que o problema dos escândalos sexuais também ameaçam o Brasil. "Esse é um problema geral".

Dom Damasceno acredita que os maiores desafios da Santa Sé não são nem os escândalos de corrupção nem os de abusos sexuais revelados nas últimas semanas. "Problemas existem em qualquer instituição", disse. E emendou: "Mas esse não é o grande problema que o próximo papa terá de enfrentar. O maior deles é estar atualizado na transmissão do conteúdo da fé. Precisamos transmitir nossa mensagem de uma forma atualizada para sermos entendidos".

"É uma mudança de época, e não só uma época de mudanças. Não há valores permanentes e o avanço da ciência nem sempre representa um avanço moral", insistiu.

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