Tony Gentile/Reuters
Tony Gentile/Reuters

Cardeal brasileiro fez campanha para papa argentino

D. Cláudio Hummes teria agido nos bastidores, mesmo antes do conclave, para conseguir votos de asiáticos, africanos e latinos

Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo

16 Março 2013 | 00h01

VATICANO - Os cardeais brasileiros racharam durante o conclave e a vitória do argentino Jorge Bergoglio sobre o brasileiro Odilo Scherer teve a intervenção fundamental de d. Claudio Hummes. O arcebispo emérito de São Paulo mobilizou apoio para o argentino e atuou para encontrar um nome de mediação quando os favoritos Angelo Scola e Scherer não se mostraram fortes suficientes na votação.

Passados três dias do conclave, a constatação é de que os cardeais brasileiros não atuaram de forma conjunta para eleger Scherer e a divisão ficou ainda mais clara após a eleição. D. Claudio e o d. João Braz Aviz sequer participaram da coletiva de imprensa ao lado dos três colegas brasileiros, entre eles Scherer.

Segundo o jornal Il Messaggero, d. Claudio teve um papel central no processo de criação de consenso em torno do nome de Jorge Bergoglio. Não por acaso, foi ele quem saiu ao balcão junto com o argentino na quarta-feira, quando o nome do novo papa foi anunciado. Foi o próprio papa quem pediu sua companhia, como uma gratidão pelo lobby que o brasileiro coordenou e pela proximidade dos dois de décadas.

Como o Estado havia revelado no dia seguinte ao conclave, a votação chegou a um impasse. Nem Scherer nem Scola conseguiram o apoio dos grupos opostos e logo ficou claro que, apesar de favoritos, não eram nomes de consenso. O canadense Marc Oullet também despontou, mas sem votos suficientes.

Scherer, nome defendido pela Cúria, ainda foi vítima de uma verdadeira revolta de vários cardeais, que se recusaram a votar pelo "partido romano", como passou a ser conhecido o grupo que defendia os príncipes no poder - amplamente acusados de terem jogado a Igreja em pleno terremoto de polêmicas.

Já Scola acabou sendo traído pelos cardeais italianos, que optaram por não o apoiar de forma tão massiva quanto se esperava. Mesmo assim, ele decidiu manter sua candidatura. Em Roma, especula-se que, se o italiano tivesse desistindo antes, Scherer poderia ter saído como vitorioso, já que atrairia os votos mais conservadores do grupo que apoiava a Scola.

Mas a realidade é que a eleição caminhou para um impasse e, logo, a busca de uma alternativa. Foi nesse momento que o trabalho silencioso de d. Claudio deu resultado. Segundo o jornal, quando o brasileiro entendeu que havia um impasse e que os favoritos estariam cedendo espaço, deu o sinal para que o bloco de apoio ao argentino entrasse em ação e buscasse de forma individual outros votos de apoio a Bergoglio.

Telefonemas. O assessor de um cardeal norte-americano confirmou que o sinal de Hummes foi dado no final da manhã de quarta-feira. "Soubemos que ele atuou primeiro em total sigilo. Disparou telefonemas a todo o mundo há semanas, antes mesmo de chegar a Roma. Quando chegou o momento, havia uma tropa de choque para buscar apoio a Bergoglio. O resultado foi uma explosão no número de votos", explicou.

De fato, já na primeira rodada de votação, Bergoglio teve votos de cardeais da Ásia e da África, além de um grupo minoritário da Itália. Outra fonte de apoio foram os cardeais fiéis a João Paulo II, conhecidos como "wojtyiani", em referência papa polonês. O grupo veria amplas semelhanças no estilo de João Paulo II e de Francisco.

O cardeal brasileiro Raymundo Damasceno confessou ao Estado que "Bergoglio veio surgindo", indicado que o argentino recebeu voto de latino-americanos, ainda que não todos.

Antes da quarta votação, Scola teria desistido e retirado seu nome, segundo o jornal italiano. Nesse momento, a via estava aberta para a vitória de Bergoglio. Na quinta votação, quando o 77.º voto foi contado para o argentino, os cardeais romperam o silêncio em um longo aplauso. Bergoglio atingiria mais de 90 votos dos 115 possíveis, bem acima do número obtido por Ratzinger em 2005.

D. Claudio é um velho amigo de Bergoglio e já em 2005 havia apoiado o argentino no conclave que elegeu Joseph Ratzinger. Naquele momento, porém, o alemão era franco favorito.

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