Cardeal critica Vaticano no caso de bispo que negou Holocausto

Walter Kasper falou de 'erros de gestão' e disse que 'ninguém pode estar satisfeito com esses equívocos'

Efe,

03 de fevereiro de 2009 | 15h10

O cardeal Walter Kasper, encarregado das relações com os judeus, afirmou que o Vaticano geriu mal a reabilitação dos quatro bispos lefebvrianos, um dos quais negou o Holocausto, "sem ter em conta de onde poderiam surgir os problemas."  Veja também:  Vídeo: A polêmica entrevista do bispo WilliamsonBlog de Richard Williamson Judeus alemães condenam perdão a bispo que nega HolocaustoVaticano volta a condenar declarações de lefebvrianosMais um sacerdote lefebvriano questiona o HolocaustoRabinato de Israel rompe relações com a Santa SéPapa divide Vaticano ao reabilitar bispo que nega o HolocaustoGrupo católico pede desculpas por membro que negou o Holocausto Fala de cardeal gera tensão entre Vaticano e Israel Kasper se manifestou em uma entrevista ao programa alemão da Rádio Vaticano, em que disse que os quatro bispos tradicionalistas "ainda não estão" em plena comunhão com a Igreja de Roma.  "Eu tenho que dizer abertamente, no Vaticano, sobre esse tema (a reabilitação dos quatro prelados) falaram pouco uns com os outros", afirmou o cardeal, que acrescentou que "não se verificou" onde poderiam "surgir problemas" e que "explicar depois as coisas é muito mais complicado." Kasper falou de "erros de gestão" e disse que "ninguém pode estar satisfeito com esses equívocos." No dia 24 de janeiro o Vaticano anunciou que Bento XVI havia reabilitado os quatro bispos, seguidores do falecido arcebispo Marcel Lefebvre. São eles Bernard Fellay, superior da fraternidade São Pio X, criada por Lefebvre; o espanhol Alfonso de Galarreta, o francês Tissier de Mallerais e o britânico Richard Williamson, que foram excomungados automaticamente em 1988 após serem ordenados bispos contra a vontade de João Paulo II.  O Decreto da Congregação para os bispos pelo qual se retirava a excomunhão foi assinado por Giovanni Battista. O cardeal Dario Castrillón Hoyos, presidente da comissão Ecclesia Dei, criada para as relações com os lefebvrianos, também teve um grande papel na retirada das penas.  A reabilitação dos bispos coincidiu com as declarações de Williamson a uma televisão sueca em que negou o Holocausto e afirmou que "não existiram câmaras de gás" e que somente 300 mil e "não seis milhões" de judeus foram mortos nos campos de concentração.  Kasper disse à Rádio Vaticano que os quatro bispos "estavam e estão suspensos" e que espera que "agora se inicie um diálogo sério" para chegar à plena comunhão com os lefebvrianos. Reações na Alemanha Quase quatro anos depois de um raro afloramento do orgulho nacional com a eleição do pontífice nascido em seu país, os alemães estão se desencantando com o papa Bento XVI por causa da reabilitação de um bispo que renega o Holocausto.  Católicos proeminentes, políticos e editorialistas da terra natal de Joseph Ratzinger não têm feito rodeios em suas críticas contra a anulação da excomunhão de quatro bispos, incluindo um que nega a extensão do Holocausto.  Até mesmo a chanceler Angela Merkel, numa rara manifestação, criticou o papa, conclamando-o a deixar claro que o Vaticano não tolera a negação da existência do Holocausto.  Merkel afirmou que raramente faz comentários sobre assuntos internos da Igreja.  "Mas é diferente se estamos falando de questões fundamentais", afirmou em uma coletiva de imprensa. "Eu acho que é uma questão fundamental se, graças a uma decisão do Vaticano, cresce a impressão de que o Holocausto pode ser negado."  O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, respondeu à chanceler alemã, Angela Merkel, que pediu ao papa para "deixar claro" que a Santa Sé não tolera a negação do Holocausto, afirmando que as palavras de condenação de Bento XVI "são claríssimas". "A condenação das declarações negacionistas do Holocausto (por parte do papa) não poderiam ser mais claras e é evidente que as mesmas também se referiam à posição do monsenhor Williamson (o bispo reabilitado que nega a existência das câmaras de gás) e a todas as posições análogas", destaca Lombardi em comunicado "Críticas ao papa em todo o mundo", lia-se na primeira página no diário mais vendido da Alemanha, o Bild, que dedicou a maior parte de sua segunda página ao furor. Um enorme contraste com a manchete de abril de 2005, "Nós somos o papa!", comemorando a escolha de Ratzinger.  "O papa cometeu um erro grave. O fato de ele ser um papa alemão torna a questão especialmente ruim", leu-se no editorial do jornal.  "O papa Bento XVI está infligindo um grande dano à Alemanha...O papa precisa corrigir seu erro, reverter sua decisão e pedir desculpas", disse o jornal, em comentários que fizeram eco em outros jornais.  O ex-ministro das Relações Exteriores Hans-Dietrich Genscher escreveu no Mitteldeutsche Zeitung: "Os poloneses podem se orgulhar do papa João Paulo II. Na última eleição papal, dissemos 'Nós somos o papa!' Mas por favor - não dessa forma".  Vaticano Após declarações da Igreja e da comunidade internacional contra a revogação da excomunhão ao bispo tradicionalista Richard Williamson, que negou o Holocausto, Lombardi divulgou um comunicado para especificar "os novos pedidos de esclarecimentos sobre a posição do papa e da Igreja sobre o tema da Shoah". "O pensamento do papa sobre o tema do Holocausto foi expressado com muita clareza na Sinagoga de Colônia em 19 de agosto de 2005, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, em 28 de maio de 2006, na audiência pública de 31 de maio no Vaticano e na audiência de 28 de janeiro, com palavras inequívocas", disse Lombardi. "Enquanto renovo com afeto minha plena e indiscutível solidariedade para com nossos irmãos judeus, auspício que a memória da Shoah induza a humanidade a refletir sobre a imprevisível potência do mal quando conquista o coração do homem", destacou. "A Shoah deve ser para todos uma advertência contra o esquecimento, contra a negação e contra o reducionismo", acrescentou o papa. Lombardi destacou hoje que a condenação do pontífice às declarações negacionistas do Holocausto "não podem ser mais claras". É "evidente" que, com a mesma, se referia também "a Richard Williamson -um dos quatro bispos tradicionalistas aos quais o papa retirou a excomunhão e negou a Shoah- e a todas as posições análogas". Com esta última frase, Lombardi se referia às manifestações dos sacerdotes Floriano Abrahamowicz, que relançou as teses revisionistas de Williamson. Lombardi ressaltou que no mesmo dia em que o papa condenou o negacionismo do Holocausto (28 de janeiro), também explicou "claramente" o objetivo da revogação das excomunhões. "Isso também não tem nada a ver com uma legitimação das posições negacionistas do Holocausto, claramente condenadas pelo pontífice", reiterou. Bento XVI disse nesse dia que tinha levantado a excomunhão como um "gesto de misericórdia paterna". Além de Merkel, o cardeal de Mainz e ex-presidente da Conferência Episcopal Alemã, Karl Lehmann, também pediu uma desculpa "desde o mais alto nível" pela reabilitação dos sacerdotes. (Com Reuters)

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