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Fernando Reinach
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Carnificina em Tollense

Três mil e duzentos anos atrás. Mil e duzentos anos antes do nascimento de Cristo. No Mediterrâneo, a humanidade estava na pré-história. Foi por essa época que a batalha de Troia, que deu origem a um dos mitos da civilização grega recontada por Homero, deve ter acontecido.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2016 | 03h00

Nessa época, o norte da Alemanha estava em plena idade do bronze. Esse metal levou séculos para chegar ao norte da Europa. Não havia cidades ou vilas. A população, grande parte de agricultores, vivia em aglomerados familiares. A densidade populacional era extremamente baixa, menos de 4 habitantes por quilômetro quadrado. As trocas comerciais aconteciam principalmente com os habitantes do norte que habitavam a Escandinávia.

A vida, como imaginada pelos arqueólogos nesse recanto da Europa, era bucólica. Mas isso começou a mudar em 1996. Nesse ano, um arqueólogo amador achou um osso humano na beira do Rio Tollense, 300 quilômetros ao norte de Berlin. O osso era um úmero, o maior osso do braço. Na cabeça do úmero, onde ele encaixa no ombro, estava encravada uma ponta de lança feita de pedra.

Convocados, os arqueólogos começaram a escavar o local. Hoje, na sala de um pequeno castelo da região, estão guardados em caixas e estantes mais de 10 mil ossos humanos, todos coletados no mesmo local. Quando a idade desses ossos foi estimada pelo método do carbono 14, os cientistas descobriram que todos eles eram do ano de 1.250 antes de Cristo.

O que impressionou os cientistas é a quantidade de ossos e as evidências de que no local havia acontecido uma carnificina. A densidade de cadáveres é enorme. Em uma área de 12 metros quadrados foram encontrados 20 crânios e 1.478 ossos. Até agora foram estudados 3% a 4% de toda a área onde estão os ossos, e já foram encontrados 130 pessoas e 5 cavalos. Os cientistas estimam que aproximadamente 750 pessoas, quase todos homens, morreram no local. Além dos ossos foram encontradas pontas de lança e de flechas feitas de bronze e de pedra lascada, além de instrumentos semelhantes a tacos de beisebol e machados. 

O exame dos ossos mostra que grande parte das pessoas morreu instantaneamente de injúrias causadas por lanças, flechas e pancadas. Ossos com flechas e lanças encravadas e crânios partidos por machados ou afundados por pancadas abundam. Braços e pernas quebrados também foram encontrados aos montes. Os cavalos também morreram de forma violenta. Tudo indica que no local aconteceu uma grande batalha. Se imaginarmos que somente 20% dos envolvidos morreram imediatamente no local é provável que 4 mil pessoas participaram da luta.

A análise dos ossos mostra que os mortos eram guerreiros, acostumados a lutar. Além das injúrias que causaram a morte, muitos dos ossos mostram fraturas antigas consolidadas anos antes, tanto nos braços e pernas quanto em alguns crânios. Braceletes, anéis e pulseiras de bronze também foram encontrados no local.

A análise do local onde foram encontrados os ossos revelou a presença de restos de uma ponte construída sobre o Rio Tollense 500 anos antes da batalha. Muito provavelmente a luta aconteceu sobre a ponte ou na sua volta, pois grande parte dos ossos foi encontrada no pântano que atualmente ocupa as margens do rio.

Essa é a maior batalha conhecida no período pré-histórico no norte dos Alpes. Ela demonstra que a vida dos povos pré-históricos não era tão bucólica quanto se imaginava e pequenos exércitos provavelmente vagavam pela região muito antes do surgimento das cidades. Não tem jeito, o homem é mesmo um animal belicoso.

MAIS INFORMAÇÕES: SLAUGHTER AT THE BRIDGE. SCIENCE, VOL. 351, PÁGINA 1.384 (2016)

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

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