Carnívoros anônimos

 Imagine só: a maioria das pessoas fica horrorizada ao ver a cena de um bando de leões devorando a carcaça de um búfalo, com os focinhos empapados de sangue e entranhas escorrendo para todo lado. Que nojo! Que selvageria! Coitadinho do búfalo! Ainda bem que nós somos seres civilizados e comemos nossa carne sentados à mesa, com garfo e faca, e quem sabe uma tacinha de vinho para acompanhar, não é mesmo? Pois então ... não quero estragar o churrasco de ninguém, mas, se pensarmos bem, não somos assim tão diferentes dos leões. Apesar de todas as nossas boas maneiras, receitas e temperos, um pedaço de carne continua sendo um pedaço de carne.  Pensei nisso recentemente ao visitar uma fazenda de gado de corte e ver um zootecnista me apontar (num animal vivo!) onde ficavam a picanha, a alcatra, o filet-mignon, a fraldinha ... Lá estava o meu churrasco de verdade, em carne e osso, caminhando pelo pasto despreocupadamente, sem saber que em breve seria abatido por um bando de carnívoros civilizados  e colocado à venda em pedaços no supermercado. Cada peça de carne que você come é o músculo de um animal, tal qual o seu próprio bíceps, tríceps, coxa, glúteos, etc. Nada mais do que um aglomerado de feixes de fibras musculares, cheios de actina e miosina, que um dia serviram para levantar uma perna, movimentar um pescoço ou segurar uma costela. Por favor não me entendam mal: não sou vegetariano (nem tenho nada contra quem seja) nem estou fazendo campanha contra as carnes. Pelo contrário, se pudesse, comeria churrasco todo dia! Estou apenas tentando mostrar que, no fundo no fundo, o ser humano ainda é um animal carnívoro como outro qualquer. (Ou, mais especificamente, um animal onívoro, já que também comemos aquela saladinha básica de acompanhamento com a picanha) Se o leão pudesse criar búfalos e zebras numa fazenda e soubesse colocar sua carne numa grelha antes de comer, aposto que ele também o faria. E se você já não estiver totalmente enojado com tudo isso, posso dar um outro exemplo ainda mais grotesco (porém menos sanguinolento) do nosso instinto animal.  Quem assistiu aos Jogos Olímpicos de Pequim provavelmente deve ter visto alguma reportagem sobre a culinária exótica dos chineses, que inclui coisinhas nojentas como espetinhos de grilo e escorpião torrado. Pois eu pergunto: Qual a diferença disso para uma galinha que come grilos, um sapo que come moscas ou para um chimpanzé que fica enfiando varinhas de grama num cupinzeiro para comer cupins? No fim das contas, é um animal comendo o outro, e fim de papo. Ainda bem que estamos no topo da cadeia alimentar. Pense nisso a próxima vez que morder um pedaço de osso coberto de carne e gordura. (ou não) Aquilo já foi a costela de um boi! Bon appétit.

02 de outubro de 2008 | 20h08

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