Enrique Peñalver et al.
Enrique Peñalver et al.

Carrapatos já incomodavam os dinossauros há 100 milhões de anos, diz estudo

Agarrado a uma pena de dinossauro, fóssil de parasita foi descoberto preservado em âmbar, como no filme Jurassic Park; estudo foi publicado na Nature Communications

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 14h00

A partir da descoberta de um fóssil de carrapato preservado em âmbar, um grupo internacional de cientistas  mostrou pela primeira vez que esses parasitas já se alimentavam do sangue de dinossauros há quase 100 milhões de anos. 

O estudo, publicado nesta terça-feira, 12, na revista Nature Communications, também revela uma nova espécie extinta de carrapato, batizada de Deinocroton draculi, em alusão ao vampiro Drácula. 

Os cientistas descobriram, em Myanmar, vários carrapatos aprisionados em diversos pedaços de âmbar - uma espécie de resina fóssil - datados em 99 milhões de anos. Um deles estava agarrado a uma pena de dinossauro. Segundo os autores do estudo, raramente são encontrados parasitas associados aos fósseis de seus hospedeiros e a descoberta é a primeira evidência direta da relação entre carrapatos e dinossauros.

Embora o contexto da pesquisa lembre bastante o filme Jurassic Park, os cientistas afirmam que é praticamente impossível reconstruir dinossauros a partir de eventuais restos de DNA desses animais no fóssil de um carrapato do período Cretáceo (145 milhões a 66 milhões de anos atrás). 

Na obra ficcional, dirigida por Steven Spielberg em 1993, os cientistas extraem o DNA de dinossauros a partir de fósseis de mosquitos preservados em âmbar e, a partir daí, conseguem clonar os lagartos gigantes e trazê-los de volta à Terra. Os pesquisadores, porém, explicam que embora seja comum encontrar fósseis em âmbar, é praticamente inviável extrair dessas amostras DNA em condições de ser utilizado - e o processo de clonagem seria ainda mais difícil. Todas as tentativas feitas até hoje de extrair DNA de espécimes em âmbar foram um fracasso, por causa da curta vida útil dessa molécula.

"Os carrapatos são infames organismos parasitários sugadores de sangue, que têm um impacto tremendo na saúde de humanos, de gado, de bichos de estimação e de animais selvagens. Mas até agora estava faltando uma clara evidência do papel desses parasitas no passado remoto", disse o autor principal do estudo, Enrique Peñalver, do Instituto de Pesquisa de Geologia e Mineração da Espanha.

Segundo Peñalver, o âmbar do Cretáceo fornece aos cientistas uma janela para o mundo dos dinossauros emplumados. Parte desse grupo de dinossauros mais tarde evoluiria para dar origem às aves modernas. A pena de dinossauro encontrado no âmbar com o carrapato, segundo os cientistas, tem estrutura semelhante à das penas dos pássaros.

"O registro fóssil nos mostra que penas como a que estudamos já estavam presentes em uma vasta gama de dinossauros terópodes, um grupo que incluía lagartos que corriam no solo e não voavam, assim como outros dinossauros capazes de voar como as aves", afirmou outro dos autores da pesquisa, Ricardo Pérez de la Fuente, do Museu de História Natural da Universidade de Oxford.

"Embora não tenhamos certeza de que tipo de dinossauro o carrapato estava se alimentando, a idade da amostra de âmbar, da metade do período Cretáceo, confirma que as penas com certeza não pertenciam a uma ave moderna. Os pássaros só apareceram muito mais tarde na evolução dos terópodes, de acordo com as evidências fósseis e moleculares atuais", afirmou de la Fuente.

Um dos espécimes encontrado no âmbar, da nova espécie, Deinocroton draculi, estava "notavelmente abarrotado de sangue", segundo os cientistas, com seu volume aumentado em oito vezes. Apesar disso, não foi possível determinar exatamente qual era a espécie de dinossauro que lhe serviu de repasto.

"Avaliar a composição do sangue no interior do carrapato não é possível, porque, infelizmente, o parasita não estava completamente imerso na resina e, por isso, seu conteúdo foi alterado por deposição mineral", explicou outro dos autores do estudo, Xavier Delclòs, da Universidade de Barcelona (Espanha).

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