Cassini confirma existência de lago em lua de Saturno

Titã é o único astro conhecido, além da Terra, a manter uma massa de líquido - no caso, etano - na superfície

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

30 de julho de 2008 | 15h29

Dados obtidos pela sonda Cassini, da Nasa e da Agência Espacial Européia, confirmam que Titã, uma das luas de Saturno, tem um lago próximo ao pólo sul. Com isso, Titã torna-se o primeiro corpo do Sistema Solar, além da Terra, onde se comprova a presença de uma massa líquida na superfície. O lago de Titã não é de água, porém, mas de etano - um hidrocarboneto, como o metano - misturado a nitrogênio e outros materiais orgânicos.   Marte tinha áreas habitáveis quando a vida começava na Terra   Durante décadas, cientistas especularam sobre a possível presença de líquidos na superfície de Titã, uma lua que tem uma atmosfera densa, repleta de hidrocarbonetos, e temperaturas da ordem de -180º C.   "Talvez o maior erro tenham sido as especulações sobre a presença de um oceano global, com quilômetros de profundidade", disse Robert Brown, da Universidade do Arizona (EUA), principal autor do artigo que descreve a descoberta do lago, na edição desta semana da revista Nature. "Não há nada disso".   Estudando o sistema formado por Saturno e suas luas desde 2004, a Cassini é incapaz de produzir imagens diretas da superfície de Titã, por conta da densa atmosfera do satélite. Cientistas dependem de leituras feitas por radar e ondas infravermelhas para determinar o que há em Titã.   "O radar já havia revelado possíveis lagos, mas sua resolução não é muito boa", explica Brown. "As manchas que parecem lagos e mares nas imagens de radar poderiam estar cheias de areia fina, ou cascalho". Já no caso do lago de etano confirmado por Brown - batizado de Ontário Lacus, ou Lago Ontário, por conta de sua semelhança com o grande lago da América do Norte - a varredura foi feita com infravermelho, o que permitiu determinar a composição do material: etano, que nas condições de pressão e temperatura da lua é um líquido.   "Além disso", disse ele, "conseguimos determinar que a superfície é perfeitamente lisa. É impossível conseguir algo tão plano com um sólido". Brown acredita que alguns dos outros candidatos a lagos, detectados por radar, devem estar secos, por conta da meteorologia de Titã. "Quando um dos pólos de Titã se encaminha para o inverno, o material tende a evaporar de outros lugares e se concentrar lá". O cientista estima que o volume de líquido na superfície de Titã deve equivaler a cerca de metade do total nos Grandes Lagos da América do Norte.   Em janeiro, estudo publicado na Geophysical Research Letters por outra equipe de cientistas apresentou uma estimativa de que Titã contém mais hidrocarbonetos que todas as reservas de petróleo e carvão da Terra. Hidrocarbonetos são matéria orgânica, como as moléculas que compõem o seres vivos. Pode haver vida na superfície de Titã?   Brown diz que muito da química que ocorre em Titã poderia ser vista como "precursora de vida", mas lembra que a vida, como a conhecemos, requer água em estado líquido. "Embora haja água congelada na crosta de Titã, e até a possibilidade de um oceano subterrâneo, ela não existe como líquido na superfície". O cientista diz, no entanto, que já foram propostos esquemas teóricos que permitiriam a presença de vida baseada em hidrocarbonetos líquidos, em vez de água. "Há a sugestão de que coisas poderiam viver em metano líquido, com processos químicos diferentes da vida terrestre. Não podemos descartar essa hipótese".   Para testá-la, no entanto, serão necessários equipamentos diferentes dos a bordo da Cassini. "Já existe a tecnologia para criar uma missão com uma sonda orbital, balões para estudar a atmosfera e robôs para a superfície, até mesmo um robô-submarino para os lagos",  afirma Brown. "Uma missão assim custaria de US$ 1 bilhão a US$ 5 bilhões. Mas não veremos nada do tipo antes de 20, 25 anos. A tecnologia existe, mas não a vontade política".

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