Católicos e muçulmanos se reúnem no Vaticano

Iniciativa pretende criar mecanismo permanente de diálogo entre as duas religiões

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

03 de novembro de 2008 | 15h07

Católicos e muçulmanos vão se reunir a partir desta segunda-feira, 3, no Vaticano para tentar lançar uma iniciativa inédita na relação entre as duas religiões e criar um mecanismo permanente de diálogo. De um lado, o Vaticano quer maiores garantias de que as minorias cristãs possam praticar sua fé em países muçulmanos sem serem ameaçados. De outro, os muçulmanos querem ser reconhecidos não como uma religião ligada à violência e apelam para que o Vaticano reconheça e promova essa imagem do islamismo.   O tema vai bem além de um debate religioso e envolve até mesmo a percepção se a Turquia e suas leis estariam prontas para fazer parte da União Européia, de maioria cristã. A Santa Sé afirma que já deu demonstração de que está disposta a conversar e publicou um estudo em que reconhece, pela primeira vez, que o número de muçulmanos no mundo é superior ao número de católicos. O encontro que começa nesta segunda-feira, 3, é o primeiro dessa magnitude realizado nas dependência da Santa Sé e envolve acadêmicos e religiosos duas religiões. Na quinta-feira, 6, os especialistas terão uma reunião com o Papa Bento XVI.  Um dos possíveis resultados seria a criação de um plano de gerenciamento de crise para evitar tensões entre as duas religiões em casos de emergência. Há dois anos, protestos nos países muçulmanos após a publicação de caricaturas de Maomé em um jornal dinamarquês acabaram em violência e mortes. Em outubro de 2006, poucos meses depois de ter assumido o papado, Bento XVI ainda gerou outra polêmica ao citar em um discurso em Regensburg um imperador bizantino que comparava o islamismo à violência. Grupos islâmicos passaram a atacar o Papa e alegar que o Vaticano estaria tentando deslegitimar a religião. Bento XVI acabou pedindo desculpas e alegou que não foi compreendido.  Em resposta à crise estabelecida entre as duas religiões, um grupo de especialistas muçulmanos se reuniram e enviaram há um ano uma carta ao Papa Bento XVI sugerindo que um diálogo fosse estabelecido. Para o grupo, que ficou conhecido como Palavra Comum, a crise foi criada pela falta de conhecimento entre as religiões. Agora, a tentativa é a de voltar a estabelecer uma confiança entre os líderes religiosos. Não por acaso, a reunião de hoje recebeu o nome de "Amor por Deus, amor pelo vizinho". Na agenda ainda está "fundamentos espirituais" e "dignidade humana e respeito mútuo".  "Precisamos desenvolver um mecanismo de reação a crises", afirmou Ibrahim Kalin, um acadêmico turco que atua como porta-voz do grupo. Em Roma, fontes na Santa Sé afirmam que o Vaticano já está fazendo sua parte para aproximar as duas religiões. Uma primeira iniciativa foi o reconhecimento de que já existem 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo, contra 1,1 bilhão de católicos.  Mas o Vaticano se queixa de que os cristãos em países muçulmanos não tem liberdade religiosa. Os exemplos dados pelo Vaticano são vários. A Igreja de São Paulo, em Tarsus, na Turquia, é controlada pelo governo e cerimônias no local não são permitidas. Para os cristãos, a cidade tem uma importância especial, já que seria o local de nascimento de São Paulo.  Na semana passada, o arcebispo e presidente da Conferência Episcopal da França Jean-Pierre Ricard deu indicações do que será a mensagem do Papa. "O islamismo deve tomar o mesmo caminho da Igreja Católica nos últimos 200 anos e aceitar a conquista do iluminismo, direitos humanos e principalmente a liberdade religiosa", disse, em uma conferência em Bruxelas. "A liberdade religiosa se refere à liberdade de consciência: a possibilidade de aderir ou deixar uma religião. Sei que isso é um problema delicado para muitos muçulmanos. Mas acredito que uma total integração à sociedade européia implica essa liberdade", disse Ricard, em referência a uma tentativa da Turquia de fazer parte da UE nos próximos anos.  Já os muçulmanos alertam que católicos na Europa também resistem à construção de mesquitas. Em Colônia, imigrantes turcos planejam erguer a maior mesquita da Europa, recebendo críticas das autoridades locais. No sul da Espanha, o problema não é diferente. Na Suíça, um grupo de extrema direita propôs um referendo popular para votar se muçulmanos poderiam ou não conseguir minarets.

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