Cautelosos, especialistas aprovam suco de palmeira

A retirada de sementes de palmito juçara (Euterpe edulis) dos parques paulistas, para produção de mudas destinadas ao enriquecimento de matas manejadas, é uma medida positiva, embora vista com cautela pelos especialistas que pesquisam a produtividade da espécie e sua importância em relação à fauna."Tudo vai depender da quantidade de sementes a ser retirada. Existe certamente um excesso de sementes de palmito produzidas em locais com alta densidade de adultos, como, por exemplo, no Parque Estadual de Intervales, mas, em locais onde os adultos são raros, isso certamente traz alto impacto para a fauna, principalmente aves de grande porte, como tucanos, arapongas e sabiás-una", explica o biólogo Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Rio Claro). Galetti é especialista em dispersão de sementes pela fauna e agrega que o plantio através de sementes feito pelo homem, na mata, não funciona tão bem quanto o realizado pela fauna. "A mortalidade de plântulas é altíssima, por isso jogar sementes na mata é perda de tempo: o enriquecimento tem mesmo que ser feito com plantas jovens".Na Mata Atlântica, o palmito juçara é considerado uma espécie chave, de grande importância para a sobrevivência de muitos primatas, roedores, pássaros, araras, papagaios e tucanos. Trata-se de uma palmeira extremamente produtiva, com um longo período de frutificação (janeiro a junho), cujos frutos alimentam os mamíferos e aves num período crítico, como é o início da estação seca.As aves e animais maiores, em geral, comem a polpa e eliminam a semente, sendo responsáveis pela dispersão natural de novas mudas em meio à floresta. Os roedores são considerados predadores, porque danificam a semente, mas alguns deles, como a cotia, têm o hábito de armazenar os frutos, enterrando-os. Como nem sempre recuperam tudo o que escondem, também se tornam responsáveis pela dispersão e plantio de novas mudas, contribuindo para a renovação natural da mata.A retirada do cerne da palmeira para comercialização do palmito mata a árvore e reduz a quantidade de fruto disponível para a fauna. Isso não costuma ser um problema em áreas manejadas, onde se tem o cuidado de deixar um número razoável de matrizes e palmeiras adultas para assegurar a frutificação e reprodução, mas a história da exploração do palmito da Mata Atlântica é uma história de excessos, com a eliminação total de palmeiras adultas e jovens em matas particulares e inúmeros casos de roubos e depredação do recurso em parques e reservas florestais."As matrizes costumam ser as mais visadas pelos palmiteiros, porque são maiores e rendem mais palmito", diz Paulo Kageyama, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). Cálculos informais do Instituto Florestal já estimaram em cerca de 8 caminhões por semana a quantidade de palmitos retirados de parques paulistas. Cada palmiteiro dentro da mata tira, em média, 10 a 15 dúzias por dia e gasta dois a três dias para recolher e carregar no caminhão. Só no último dia 15 de janeiro, fiscais do Ibama apreenderam mais de meia tonelada de palmitos extraídos ilegalmente, já preparados para comercialização, em Miracatu, no Vale do Ribeira (SP).Segundo Kageyama, o palmito juçara só não acabou porque tem uma estratégia de reprodução que pode ser comparada a uma pirâmide de base muito larga e topo muito estreito. Ele orientou uma tese de doutorado, do catarinense Ademir Reis, hoje na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que teve a paciência de contar todas as sementes, plântulas, palmeiras jovens, imaturas e matrizes de palmito existentes em um hectare de mata intocada, evidenciando tal estratégia "piramidal".Reis somou, num hectare, 377.101 frutos; 53.100 sementes no solo; 23.364 sementes vivas (não predadas, nem podres); 12.565 plântulas; 4.012 palmitos jovens; 560 imaturos (de bom diâmetro, mas ainda sem frutificar) e apenas 61 matrizes. "O curioso é que muitas plântulas podem permanecer por longos períodos crescendo muito lentamente e, de repente, uma delas se desenvolve e atinge a fase adulta, quase como se fosse uma reserva estratégica da floresta. Os mecanismos que deflagram este crescimento, ainda desconhecemos", acrescenta Kageyama. Ele também acredita que a retirada das sementes não tem grandes impactos se feita com controle, sobretudo em relação à época de retirada e quantidades.Na sua opinião, a coleta deve se limitar ao máximo de 50% do total de sementes disponível embaixo de cada matriz e no período em que a fauna é menos dependente porque dispõe de outros alimentos, ou seja, entre janeiro e março/abril. "A área de retirada também deve ser bem escolhida, onde tenha um bom número de matrizes", acrescenta o pesquisador da Esalq.Ainda seria importante aproveitar a experiência acumulada por produtores do Vale do Ribeira, que têm tido a assessoria da Fundação SOS Mata Atlântica, através do Centro Tuzino de Educação Ambiental e Difusão do Palmito, localizado em Miracatu, SP. O centro estuda os padrões para a certificação de áreas de manejo do palmito juçara, com apoio do especialista Maurício Reis, também da UFSC.

Agencia Estado,

19 de janeiro de 2002 | 13h30

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