Célula-tronco adulta age como embrionária

"É o melhor dos dois mundos." Assim a geneticista Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo (USP), define o novo trabalho de seu colega de profissão Rudolf Jaenisch, membro do prestigiado Instituto Whitehead, nos Estados Unidos.Na nova edição da revista especializada Cell, ele desvenda o mecanismo que permite a certas células-tronco adultas se comportarem como embrionárias, com a capacidade de se multiplicar em laboratório ao mesmo tempo que se mantêm indiferenciadas.O segredo está guardado em uma "chave" molecular, o gene Oct-4.A molécula trabalha no estágio inicial do embrião, "segurando" as células para não se diferenciarem antes da hora. No tempo certo, o gene se desliga e as células então formam os tecidos certos, como cardíaco, ósseo, cutâneo e daí em diante.Com o controle do gene, é hipoteticamente possível fazer com que certas células-tronco adultas sejam mantidas neste estágio sem diferenciação, o que pode expandir seu campo de atuação na pesquisa de novos tratamentos.As células-tronco têm a capacidade virtual de formar diversos tecidos do corpo e, por esse motivo, são encaradas atualmente como uma esperança na criação de terapias para doenças degenerativas como mal de Parkinson e diabete.Elas são encontradas no corpo em locais como medula óssea, sangue e cérebro. Porém, são aquelas retiradas de embriões que têm tal versatilidade multiplicada e são mais fáceis de serem cultivadas artificialmente.Por outro lado, as células-tronco embrionárias estão no centro de um debate ético sobre a validade de usar embriões humanos - que para alguns grupos, como os católicos, podem ser considerados seres vivos - na pesquisa de novos métodos terapêuticos, que podem aliviar o sofrimento de milhões de pessoas no mundo.O novo estudo se esquiva da polêmica.NocauteJaenisch se firma no trabalho de um pesquisador do seu laboratório, Konrad Hochedlinger, que por curiosidade "ligou" o gene Oct-4 dormente em camundongos transgênicos para saber o que ocorreria. Como conseqüência, os animais tiveram tumores no intestino e na pele porque as células se desenvolviam de forma descontrolada.Por outro lado, quando o gene era "desligado" ou "nocauteado", como dizem os geneticistas, o tumor enfraquecia, um indicativo de que o processo pode ser revertido."(A ativação do gene) Pode levar à formação de um câncer, por isso é importante saber o momento de desligá-lo", comenta a geneticista da USP.A expressão do gene Oct-4 já havia sido observada em certos tumores, como câncer de testículo e de ovário. Já a expansão reversível "de células progenitoras da pele pela indução do Oct-4 pode ser de um potencial interesse médico (...), que podem ser usados na regeneração da epiderme", como para tratar vítimas de queimaduras, escrevem os cientistas.PotênciaApesar de a dupla evitar a expectativa criada em torno da descoberta, o que mais chama a atenção na experiência simples é a possibilidade de se manipular as células-tronco adultas da mesma forma que se trabalha com a variação embrionária.O cultivo em laboratório é um processo essencial para que o cientista possa estudá-las e para a viabilidade de tratamentos. Só que, normalmente, uma célula tirada de um tecido adulto começa quase que imediatamente a se transformar.Sua manutenção indiferenciada exige o uso de substâncias químicas cujos efeitos ainda não foram completamente esclarecidos nem mantidos em longo prazo."Jaenisch mostra que é possível multiplicar quase infinitamente essas células sem que elas percam a pluripotência (a capacidade de formar qualquer tecido)", explica Lygia.A ferramenta genética, diz ela, aumenta a possibilidade de se utilizar a fonte adulta. Para o americano, a descoberta fornece uma nova maneira de encarar as células-tronco, pois torna possível implantá-las de volta no paciente sem a formação de tumores.O laboratório, localizado dentro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), continua a pesquisar o potencial do gene Oct-4. Agora, eles testam se sua ativação pode facilitar a reprogramação de células somáticas (qualquer uma exceto os gametas sexuais) e a manipulação de células-tronco embrionárias para cada paciente.Jaenisch é um pioneiro no trabalho com transgenia. Ele foi o criador do primeiro modelo animal transgênico e conduziu a primeira correção genética em camundongos pela clonagem terapêutica.   leia mais sobre células-tronco

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