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Cemitérios sem filhas

Discriminação sexual faz parte da história de nossa espécie desde muito antes da escrita

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2019 | 05h00

Quatro mil anos atrás. O homem estava em plena idade do bronze e a civilização grega só floresceria 1,5 mil anos mais tarde. No sul da atual Alemanha, no vale do Rio Lech, havia cinco fazendas distantes dois a quatro quilômetros entre si. Cada fazenda possuía o próprio cemitério e elas compartilhavam um mistério: os arqueólogos descobriram que as filhas das famílias ricas não estavam enterradas nos cemitérios. Simplesmente haviam desaparecido. Por outro lado, as filhas dos servos pobres que moravam na fazenda não tinham o mesmo destino: estavam todas enterradas. 

Os cientistas estudaram as ossadas de quase 200 pessoas enterradas nos cemitérios das cinco fazendas. Parte das ossadas era de pessoas ricas, enterradas com objetos de metal como facas, lanças e outros itens preciosos. Mas grande parte das ossadas havia sido enterrada sem sinais de riqueza. Quarenta das 200 ossadas tiveram seu DNA sequenciado e parte de seu genoma decifrado. Analisando o DNA foi possível saber o sexo da pessoa. 

Além disso, cada um dos 40 genomas foi comparado com os outros 39 para saber seu grau de parentesco. Dessa forma foi possível reconstituir diversas árvores genealógicas em cada uma das fazendas. Uma delas se estende por cinco gerações. As árvores genealógicas se dividem em dois grandes grupos: parte delas só contém pessoas ricas (enterradas com objetos preciosos) e outras só pessoas pobres. Analisando o DNA também foi possível descobrir que os pobres nunca tinham filhos com os ricos. Ou seja, em cada uma das fazendas, ao longo de centenas de anos, havia pessoas de duas procedências genéticas que não se misturavam: ricos e pobres.

As árvores genealógicas dos pobres eram simples: em cada geração, pessoas semelhantes se casavam e tinham filhos de ambos os sexos, exatamente o que esperaríamos. Mas as árvores genealógicas das pessoas ricas eram peculiares. Primeiro porque não continham meninas (isso não quer dizer que elas não nasciam, apenas que não foram encontradas nos cemitérios). As únicas meninas enterradas com objetos preciosos haviam morrido na infância. Segundo porque as mulheres adultas enterradas com objetos preciosos e mães da próxima geração não pertenciam ao mesmo grupo genético daquela fazenda. Esse achado sugere que as mulheres que se casavam com homens ricos de cada fazenda vinham de fora da região. Elas se casavam e tinham filhos, mas enquanto os filhos homens eram encontrados nos cemitérios, as filhas mulheres desapareciam.

A explicação dos cientistas é que havia uma troca de mulheres entre diversos grupos dispersos pela região. Os meninos ficavam na fazenda, herdavam a propriedade e traziam mulheres de outras regiões para se casar. E provavelmente enviavam meninas de mais de 17 anos para se casar com as famílias ricas de outras regiões (daí o fato de as filhas não estarem no cemitério). 

Para comprovar essa hipótese, os cientistas analisaram os minerais presentes nos dentes dos cadáveres. A composição mineral do dente reflete a composição da água que a pessoa tomou durante a infância (quando os dentes se formam). Esses estudos mostraram que as mulheres que se casavam com os homens ricos haviam crescido em outras regiões da Europa, a aproximadamente 300 a 350 quilômetros de distância. Já os meninos ricos nasciam, casavam-se e morriam na mesma fazenda.

Esse fenômeno não é muito diferente do que ocorria até recentemente entre as famílias reais na Europa. As princesas muitas vezes eram obrigadas a se casar com príncipes de outras famílias reais. O fascinante é que esse comportamento já existia 4 mil anos atrás. As razões para essa troca de filhas, que eram forçadas a se separar das famílias e viajar centenas de quilômetros, ainda são desconhecidas. O que é certo é que essa troca de filhas só ocorria entre os ricos de cada fazenda, que jamais tinham filhos com os mais pobres. Como se vê, desigualdade social e discriminação sexual fazem parte da história de nossa espécie desde muito antes do surgimento da escrita e das primeiras civilizações na Europa.

MAIS INFORMAÇÕES: KINSHIP-BASED SOCIAL INEQUALITY IN BRONZE AGE EUROPE. SCIENCE 10.1126/SCIENCE.AAX6219 (2019)

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