Centro estuda relação entre mudança climática a genocídios

Organização que estuda a violência em massa foi criada em outubro e analisa as disputas entre povos

BBC Brasil, BBC

12 de dezembro de 2007 | 17h20

Especialistas do Centro para o Estudo do Genocídio e Violência em Massa, aberto em outubro, acreditam que as alterações do clima que têm sido debatidas por cientistas de todo o mundo podem ter um impacto importante nos conflitos humanos. "Uma das conseqüências da mudança climática será a redução de certos recursos, como água e terra cultivável. Se você entende genocídio como uma luta por recursos entre dois grupos que se consideram opostos, você entende que uma vez que os recursos diminuem, as chances de competição e violência ocorrerem aumentam", afirma o diretor do Centro, Juergen Zimmerer. Para Zimmerer, a disputa por recursos está por trás de grandes conflitos e genocídios recentes. Ele não nega que as disputas ideológicas e étnicas tenham um papel importante nos conflitos, mas acredita que as distinções criadas pela ideologia, a religião ou a raça sejam mais a dimensão em que a disputa se manifesta e se justifica do que a razão central do conflito. "Se você olha para a antiga Iugoslávia, Ruanda ou mesmo para o Holocausto, no centro desses conflitos está a disputa por recursos", afirma ele, referindo-se à guerra na ex-Iugoslávia (que opôs bósnios-muçulmanos, sérvios e croatas), ao genocídio de Ruanda (quando membros da etnia hutu massacram cerca de 800 mil tutsis e hutus moderados) e à morte de judeus em escala industrial durante a Segunda Guerra Mundial. "Em Ruanda, por exemplo, existiam dois grupos interligados. Quando o problema da falta de terra surge, um grupo decide que é necessário exterminar uma parte da população", diz Zimmerer. "Na Iugoslávia, os sérvios pensavam que a terra era uma terra sérvia e que, portanto, os muçulmanos deveriam deixar o local." "Então, primeiro existe a competição por recursos. A ideologia ganha espaço quando é preciso distinguir um grupo do outro, e isso é feito em termos de religião, etnia ou raça", acredita o professor. Zimmerer diz ainda que uma das condições-chave para que as disputas se transformem em violência em massa é a diferenciação entre os grupos em confronto na qual o oponente é desumanizado. O diretor do centro britânico afirma que o projeto de pesquisa vai estudar exemplos em várias regiões do planeta. Ele cita como um exemplo do que o centro discutirá a possibilidade de que, com uma eventual elevação dos níveis dos oceanos, milhares de pessoas sejam deslocadas das regiões costeiras, gerando superpopulações em áreas não afetadas. Entre as regiões citadas por ele, está a Amazônia. Ele diz que um dos problemas na Amazônia são as disputas entre as madeireiras e algumas populações indígenas que têm levado à expulsão dessas populações e, em alguns casos, à destruição das comunidades. Zimmerer diz ser difícil prever onde episódios de violência em massa ou genocídio podem ocorrer, mas ele acredita que é possível prevenir o problema. "Muitos acadêmicos identificam estágios em um processo de violência em massa e afirmam que é possível intervir uma vez que um estágio é identificado", afirma. Para ele, no entanto, a prevenção deve ocorrer de outra forma. "A melhor prevenção é a educação, para que a construção de grupos opostos e a desumanização do outro não ocorram."   BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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