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Cesárea e flora intestinal

A composição das bactérias no intestino do bebê é influenciada pelo tipo de parto

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2019 | 03h00

Existe uma forte tendência nos últimos anos de delegar à mulher a decisão de ter o filho por meio de um parto normal (vaginal) ou de uma cesárea. Os prós e contras de ambos os procedimentos são relativamente bem conhecidos, mas novas descobertas ocorrem todos os anos. Agora um estudo demonstrou que a formação e a composição da flora intestinal do bebê são influenciadas pelo tipo de parto. E isso pode, teoricamente, ter repercussões na saúde do filho.

O parto entre seres humanos é geralmente dolorido e demorado. Isso se deve ao fato de recém-nascidos possuírem uma cabeça relativamente grande que precisa passar pelo canal vaginal, que, por sua vez, passa por dentro da bacia. A bacia é um anel ósseo de diâmetro praticamente constante. Apesar da dilatação das estruturas moles como o colo do útero e a vagina, a passagem é estreita e limitada pelo diâmetro da bacia. Estudiosos da evolução humana acreditam que o sucesso de nossa espécie (nossa inteligência) se deve ao crescimento de nosso cérebro e, consequentemente, de nosso crânio ao longo de milênios. O problema é que esse crescimento esbarra no diâmetro da bacia.

Essa seria uma das explicações de por que nossos filhos nascem ainda dependentes e continuam seu desenvolvimento cerebral fora do útero; eles têm de nascer antes de sua cabeça ficar maior que o diâmetro da pélvis. Em teoria, o ideal seria ter uma gestação mais longa e recém-nascidos mais bem desenvolvidos, como ocorre com uma girafa, que sai andando logo após nascer. O fato é que nossa espécie opera no limite do possível: para passar pelo canal, ossos do crânio se movem (ainda não estão fundidos), alongando a cabeça da criança. Além disso, a bacia abre um pouco pelo fato de a sínfise pubiana (o local onde o anel ósseo emenda no púbis) ceder um pouco e se abrir. Tudo para deixar passar aquele cérebro que vai ficar tão inteligente.

Essa realidade biológica faz com que o processo desande em muitos partos, o que, nos piores casos, leva à morte da criança, da mãe ou de ambos. Foi exatamente para evitar essas tragédias que surgiu a cesárea, onde a criança não precisa passar pela bacia. Sem dúvida, um grande progresso. Mas não foi assim que todos os nossos ancestrais nasceram e, exatamente por isso, inúmeros estudos tentam mapear vantagens e desvantagens do parto por cesárea.

Nesse estudo, cientistas determinaram como ocorre a colonização do intestino dos recém-nascidos pelas bactérias que virão a formar nossa flora intestinal. Dentro do útero, o ambiente é estéril até que se rompa a bolsa. Ao nascer, a criança começa a ser colonizada por dezenas de tipos de bactérias que vão formar sua flora. A flora intestinal nos últimos anos tem se revelado cada vez mais importante para a saúde.

Os cientistas coletaram, um mês após o parto, as fezes de 596 recém-nascidos, sendo 314 provenientes de partos normais e 282, de cesáreas. Além disso mais de cem pares de mães e filhos, nascidos das duas maneiras, foram analisados. O DNA de microrganismos presentes nas fezes dos bebês nascidos por parto normal ou cesárea foi sequenciado e grande parte das espécies de bactérias presentes na sua flora intestinal foi identificada. 

O resultado é que a flora intestinal dos bebês analisados dependia do tipo de parto. No caso dos que nasceram de parto normal, os microrganismos encontrados eram muito semelhantes aos encontrados no intestino das mães. Já nos casos dos bebês nascidos por meio de cesáreas, a flora intestinal continha muitas bactérias típicas do ambiente hospitalar. Ambos os grupos de crianças nasceram nos mesmos hospitais e foram tratados exatamente da mesma maneira. Os cientistas acreditam que, no parto normal, o bebê recebe, durante o trabalho de parto, muitas bactérias da mãe que imediatamente colonizam o intestino e bloqueiam a instalação dos microrganismos presentes no hospital. Já no caso das cesáreas, o intestino do bebê entra em contato primeiro com bactérias presentes no ar e no ambiente hospitalar. E são esses microrganismos que se instalam no intestino. 

Isso confirma que a flora intestinal do recém-nascido é determinada pelo tipo de parto e pela flora da mãe. Mas o estudo não demonstra que não ter recebido microrganismo da mãe faz mal à criança. Para isso, terá de ser ampliados e as crianças, acompanhadas por anos.

O parto normal faz parte da história do ser humano há milhões de anos. A cesárea é uma novidade que se tornou segura há aproximadamente cem ou 200 anos. Não é à toa que sabemos muito pouco sobre suas consequências. Mas uma coisa é certa: em partos complicados ela salva muitas vidas e não deve ser demonizada. Minha opinião: sempre tentar um parto normal, mas não hesitar em fazer uma cesárea se necessário. Mas, é claro, isso é algo a ser conversado entre pais e médico.

MAIS INFORMAÇÕES: STUNTED MICROBIOTA AND OPPORTUNISTIC PATHOGEN COLONIZATION IN CAESAREAN-SECTION BIRTH. NATURE. HTTPS://DOI.ORG/10.1038/S41586-019-1560-1 2019

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