Cesáreas podem ter elevado mortalidade materna

O Brasil pode estar pagando um preço alto demais por realizar cesáreas em quase 40% dos partos - a maior taxa do mundo depois do Chile. Estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstra uma acentuada associação entre o procedimento cirúrgico e o aumento da mortalidade materna. "Sou médico e acreditava que a cesárea era 100% segura. Mas a pesquisa indica uma ligação entre mortalidade materna e parto cirúrgico. Isso pode acontecer por falta de assistência, mas há países, como o Brasil, onde o procedimento também é feito por pessoas de maior poder aquisitivo, com acesso à atenção médica de qualidade", diz Mario Merialdi, do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa da OMS.Segundo ele, que esteve no Rio para participar da II Conferência Internacional sobre Humanização do Parto e Nascimento, encerrada no sábado, o número de cesáreas no Brasil pode ser reflexo da busca por comodidade, indo contra a recomendação de realizá-las apenas em situações de risco. De acordo com o Ministério da Saúde, 92% das mortes durante o parto são evitáveis e estão ligadas ao baixo nível socioeconômico. Na área urbana, morre-se mais (74 óbitos por 100 mil nascidos vivos ante a taxa rural de 69 mortes por 100 mil nascidos vivos), principalmente por pressão alta, hemorragias, abortos e infecções. Organizadora do evento e membro da Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento, Heloísa Lessa diz que a situação no Brasil é especialmente preocupante nos hospitais particulares, onde a taxa de cesáreas ultrapassa os 90%. "A mortalidade materna não está caindo. Para que isso aconteça, precisamos reduzir as cesáreas. A mulher que opta pela cirurgia tem até seis vezes mais chance de morrer do que a que faz parto normal." A escolha pela cesárea, segundo especialistas, é reflexo de um conjunto de fatores, como falta de informação, comodidade e questões financeiras. A cirurgia é mais cara e só pode ser feita por médicos num hospital. É marcada antes e leva cerca de 20 minutos, livrando profissional e gestante de surpresas à noite, nos fim de semana e de trabalhos de parto com mais de 15 horas. "Além das cesáreas que não são de emergência, temos outro problema no Brasil, que é o parto induzido, quando a cirurgia é feita antes de o bebê estar inteiramente pronto", diz Heloísa, que é enfermeira-obstetra, ou seja, tem habilitação para acompanhar a gestante até o parto, desde que este não seja de risco, o que exigiria uma intervenção cirúrgica. No Brasil, elas são minoria - cerca de 6 mil ante os 18 mil obstetras -, mas vêm crescendo, como parte do esforço do governo em humanizar o parto, refletido também no treinamento de parteiras e na abertura de casas de parto. O investimento em ações que reconheçam o parto como ato fisiológico e não como um evento médico é a saída para mudar a taxa brasileira, diz o obstetra francês Michel Odent, introdutor do parto na água na rede pública de seu país. "É fundamental ver o nascimento como algo natural", diz ele, autor de mais de 11 livros sobre o assunto. O médico é um grande defensor do parto em local tranqüilo, assistido apenas por uma parteira. Por isso, criou os "quartos de parto" em hospitais, que imitam locais aconchegantes e caseiros. A idéia é que a mulher não fique estressada, promovendo a descarga de adrenalina no sangue e impedindo o fluxo das substâncias que compõem o chamado coquetel do amor, formado por hormônios como a ocitocina (também liberado no ato sexual e fundamental na promoção das contrações do útero) a endorfina e a prolactina.

Agencia Estado,

04 de dezembro de 2005 | 22h27

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