NASA/Goddard/University of Arizona
NASA/Goddard/University of Arizona

Chances de asteroide Bennu atingir a Terra são pequenas, diz Nasa – mas não zero

Asteroide com o diâmetro de 1,6 km se dirige em nossa direção, podendo chegar muito próximo da Terra em setembro de 2135

Paulina Villegas, The Washington Post

16 de agosto de 2021 | 10h00

Não é uma trama de mais um filme de catástrofe. Mas existe uma ameaça pendente, porém não improvável, à vida como nós a conhecemos: um asteroide se aproximando da Terra.

Bennu, um asteroide com o diâmetro de 1,6 km se dirige em nossa direção, podendo chegar muito próximo da Terra em setembro de 2135.

Mas não é motivo de pânico, disseram cientistas da Nasa na última quarta-feira, 11. Embora Bennu se situe na metade da distância da Lua, as probabilidades de uma colisão com a Terra no próximo século, causando a destruição do nosso planeta, são muito baixas.

“Apesar de não existir nenhuma possibilidade de um choque durante esse encontro, Bennu está ficando muito próximo da Terra”, disse Davide Farnocchia, cientista do Center for Near Earth Object Studies, da Nasa, que calcula órbitas de planetas e asteroides e as suas chances de impacto no Jet Propulsion Laboratory no Sul da Califórnia.

Apesar de os pesquisadores acreditarem que não haverá uma colisão com a Terra, eles agora se deparam com o desafio de decifrar como a gravidade do nosso planeta vai alterar a trajetória do asteroide em torno do Sol, afirmaram os cientistas numa teleconferência com jornalistas na quarta-feira.

Eles observaram que existe uma pequena possibilidade de o asteroide passar pelo que é conhecido como buraco de fechadura gravitacional, o que pode potencialmente colocar o asteroide em rota para a Terra numa data mais tarde no século 22. Um buraco de fechadura gravitacional é uma minúscula região no espaço onde a gravidade de um planeta pode modificar a trajetória de um asteroide que está passando e colocá-lo numa rota de colisão com ele no futuro.

Farnocchia disse que apesar de as descobertas recentes mostrarem que as probabilidades de impacto são ligeiramente maiores – de 1 em 2.700 para 1 em 1.750, no próximo século, “isso não representa uma mudança significativa” ou motivo de preocupação.

“No geral, a situação melhorou”, disse Farnocchia, autor principal de um estudo publicado na semana passada. “Não estou agora mais preocupado com Bennu do que estava antes; a probabilidade de um impacto continua muito pequena”.

No estudo, os pesquisadores da NASA usaram dados muito precisos fornecidos pela sonda OSIRIS-REx para compreender melhor os movimentos do asteroide até 2.300, aprimorando a capacidade dos cientistas de determinarem a probabilidade de um impacto com a Terra e prever as órbitas de outros asteroides.

Usando a Deep Space Network da NASA com antenas de rádio gigantescas que suportam missões de sondas interplanetárias e modelos de computador, os cientistas puderam determinar que a probabilidade no geral de Bennu atingir a Terra é de 1 em 1.750 (ou 0,057%).

Ou uma probabilidade de 99,94% de que ele não atingirá nosso planeta.

Os cientistas também calcularam o dia de maior risco de uma colisão: 24 de setembro de 2.182, com a probabilidade de 1 em 2.700 (ou 0,037%) que é ainda menor do que a possibilidade de impacto até 2.300.

O asteroide potencialmente perigoso foi descoberto em 1999 pela Lincoln Near-Earth Asteroid Research Team, programa que trabalha na detecção e rastreamento de objetos espaciais e foi observado de perto, com 580 “observações astrométricas” feitas em terra principalmente por telescópios ópticos e de radar até 2018, segundo estudo publicado no Icarus Journal.

Desde sua descoberta, Bennu teve três encontros com a Terra, em 1999, 2005 e 2011, durante os quais duas estações de radar coletaram dados das medidas do asteroide.

Embora as chances de uma colisão sejam baixas, Bennu é um dos dois mais perigosos asteroides no nosso sistema solar, ao lado de outro chamado 1959 DA, disse a NASA num comunicado à imprensa.

Segundo os pesquisadores a ameaça mais premente para a Terra de objetos espaciais são asteroides não detectados. Mas eles já detectaram 60% dos asteroides do tamanho de Bennu.

Em 2016 a NASA lançou a sonda OSIRIS-REx que voou muito próximo de Bennu para colher informações sobre seu tamanho, forma, massa e composição, monitorando também sua rotação e sua trajetória orbital para avaliar seu perigo potencial.

Depois de uma jornada de 27 meses, OSIRIS-REx chegou na órbita do asteroide em 2018 e passou dois anos estudando de perto o objeto antes de retornar à Terra em 10 de maio deste ano.

“Os dados obtidos pela sonda nos oferecem informações muito mais precisas, e podemos testar os limites dos nossos modelos e calcular a trajetória futura de Bennu com um alto grau de certeza até 2135”, afirmou Davide Farnocchia. “Jamais conseguimos fazer um modelo da trajetória de um asteroide com essa precisão”.

A sonda espacial também retirou amostras de rochas e poeira da superfície do asteroide que cairão na Terra daqui a dois anos, em 24 de setembro de 2023, aterrissando no Utah Test and Training Range, no Grande Deserto de Salt Lake.

“Os dados orbitais desta missão nos ajudaram a avaliar melhor as chances de impacto de Bennu nos próximos dois séculos e nossa compreensão no geral de asteroides potencialmente perigosos – um resultado incrível”, disse Dante Lauretta, principal investigador do OSIRIS-REx e professor na Universidade do Arizona.

“A sonda agora retorna, trazendo uma amostra preciosa deste objeto fascinante que nos ajudará a entender melhor não só a história do sistema solar, mas também o papel da luz do sol na alteração da órbita de Bennu, uma vez que mediremos as propriedades térmicas do asteroide em escalas sem precedentes em laboratórios aqui na Terra”.

Uma semana depois de a sonda entrar na sua primeira órbita em torno de Bennu, em 31 de dezembro de 2018, a equipe que integra a missão verificou, para sua surpresa, que o asteroide estava liberando pequenos pedaços de rocha no espaço.

E ficaram atônitos também ao descobrirem que Bennu está repleto de rochas, segundo comunicado da Nasa em maio.

OSIRIS-REx não é a única sonda da Terra a explorar um asteroide. Hayabusa2, lançada pela agência espacial do Japão em 2014, começou a orbitar em torno do asteroide Ryugu em 2018 e, em 2020, concluiu sua missão de coleta de amostras e trazê-las para a Terra, de acordo com a Japan Aerospace Exploration Agency.

Viajando a cerca de 965 quilômetros por hora, se Bennu colidisse com a Terra, liberaria energia de mais de um bilhão de toneladas de TNT, segundo os cálculos da Nasa.

Os danos resultantes dependem de inúmeros fatores e circunstâncias específicas, incluindo a localização e ângulo da entrada na nossa atmosfera, mas poderia criar crateras de 4,8 a 9,6 quilômetros de diâmetro, disse Lindley Johnson, membro da divisão de defesa planetária da Nasa. A área de devastação seria muito maior: cerca de cem vezes mais do que o tamanho da cratera.

Se um objeto do tamanho de Bennu atingisse a Costa Leste dos Estados Unidos, “muito provavelmente devastaria tudo de cima abaixo da costa” disse ele aos jornalistas.

*Tradução de Terezinha Martino

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