'Ciência e religião não devem se misturar', diz biólogo dos EUA

No Brasil para palestras, Douglas Futuyma faz balanço dos avanços no estudo da evolução biológica

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

29 de maio de 2008 | 00h36

Ciência e religião podem conviver, mas não devem se misturar. Essa é a receita que o biólogo americano Douglas Futuyma oferece para evitar conflitos como os que ocorrem nos EUA, em torno do ensino da teoria da evolução em escolas públicas. Futuyma é um veterano dessas batalhas, tendo sido presidente da Sociedade Americana para o Estudo da Evolução e editor da revista científica especializada Evolution. É autor, entre outros livros, de Science on Trial: The Case for Evolution (Ciência em Julgamento: O Caso em Favor da Evolução), sobre o embate entre o ensino da evolução e do criacionismo, e de Biologia Evolutiva, uma das principais obras usadas no ensino da evolução nos cursos universitários brasileiros de Biologia.   Futuyma está no Brasil nesta semana, para uma série de três palestras da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a convite do programa de pós-graduação em Ecologia da instituição. A primeira delas, na terça-feira, foi "A Biologia Evolutiva, 150 anos após a publicação da Origem das Espécies". A desta quarta teve como assunto "Evolução e o Ataque à Ciência", sobre o duelo com os criacionistas, e nesta quinta-feira o tema é "A Evolução de Associações entre Insetos e Plantas Hospedeiras".   A palestra de terça superlotou a sala de defesa de teses do Instituto de Biologia da universidade, com estudantes e professores em pé, junto às paredes e sentados nos corredores para ouvir o cientista fazer um balanço dos avanços no estudo da evolução biológica ao longo do último século, principalmente a partir da descoberta do código genético. "Os genomas não fazem sentido sem a vinculação com a evolução, e hoje também podemos estudar a influência dos genes na evolução das espécies", disse ele à platéia. Antes de iniciar a palestra, Futuyma falou à reportagem do estadao.com.br:   Como está a teoria da evolução hoje, 150 anos depois de sua formulação inicial? Mais forte que nunca. Gostaria de começar dizendo algo sobre a palavra "teoria". Essa palavra é mal compreendida, nos EUA e, talvez, no Brasil também. Para muita gente, teoria é algo como uma idéia, um palpite. Em ciência, no entanto, usamos "teoria" de um modo diferente. Físicos falam em teoria quântica, teoria atômica, e não estão fazendo especulações vazias. Eles têm muita certeza daquilo que dizem. Em ciência, "teoria" significa um corpo de explicações que dá conta de uma ampla gama de observações, e forma um corpo de conhecimento muito forte. Nos últimos 150 anos, a teoria da evolução cresceu e acumulou evidências em seu favor. Por exemplo, no tempo de Darwin (Charles Darwin, autor de "A Origem das Espécies", primeira obra a expor a teoria da evolução, publicada em 1859) não sabíamos sobre DNA, sobre genes, não sabíamos como as características passavam dos pais para filhos. Agora, usamos DNA para entender melhor a evolução, e a evolução para entender melhor o funcionamento dos genes. Outro exemplo: Darwin sugeriu, em 1866, que humanos e chimpanzés vinham de um ancestral comum e agora sabemos, graças ao DNA, que ele estava certo, porque o DNA humano e dos chimpanzés coincide em mais de 90% .   Como o trabalho de Darwin se sustenta hoje? Muitas vezes, o fundador de um novo ramo da ciência acaba superado pelo avanço da própria ciência que ajudou a criar. Comparado com outros fundadores, Darwin sobrevive muito bem. Claro que ele não era perfeito, cometeu erros e havia muita coisa que, simplesmente, não sabia. Mas é notável quantas das suas idéias, quanto de seus "insights", foram validados. Por exemplo: ele teve problemas em entender como insetos sociais, como abelhas e formigas, criam comunidades onde a maioria dos indivíduos trabalha, mas não se reproduz, já que a evolução prevê que os indivíduos que têm mais sucesso reprodutivo devem acabar dominando a espécie. Isso parecia um desafio à teoria da evolução. Ele teve a idéia de que alguns indivíduos poderiam se sacrificar em favor de outros de parentesco próximo, na mesma colônia. E hoje esta ainda é a principal explicação, com muita evidência a seu favor. Claro, ele estava errado em algumas coisas. Ele tentou criar uma teoria da hereditariedade que estava, simplesmente, errada. Mas ninguém é perfeito.   Críticos da evolução costumam dizer que a teoria é um raciocínio circular, já que afirma "a sobrevivência dos mais aptos", mas o único jeito de saber quem é mais apto é esperando para ver quem sobrevive... Não se trata de um argumento forte. Os críticos dizem que só dá para saber quem é o mais apto depois que ele sobrevive. Mas: sabemos que é possível um tipo de indivíduo ser mais abundante na espécie, mesmo se não for o mais apto. Esse é um processo puramente aleatório, de variação dos genótipos (seqüências de DNA) dentro das populações. É um processo chamado deriva genética. E não é um processo de seleção natural. Se você olhar para duas populações que começaram do mesmo jeito, uma delas poderá acabar diferente, por puro acaso, como num lance de dados. Isso elimina o argumento de que se trata de um raciocínio circular. Além disso, é possível prever qual organismo se sairá melhor num determinado ambiente. Em praticamente toda edição da revista Evolution há um exemplo do tipo, onde pegamos uma característica de um organismo, prevemos como ela pode ajudar a sobrevivência em um determinado ambiente, e depois vemos que esse é exatamente o caso. Não é preciso ser um gênio para entender que se há dois tipos de bactéria, e um deles é capaz de digerir uma substância e outro, não, se você colocá-los num ambiente com esse produto, um vai ganhar e o outro vai perder. Isso é evolução por seleção natural, e podemos prever seu resultado.   Também há quem diga que não é possível testar a evolução, para saber se ela está certa ou errada. Isso também é falso. Vamos pegar a questão da evolução no esquema mais amplo, que é a proposição de que todos os organismos evoluíram, por descendência com modificações, de um ancestral comum. Eu e as árvores lá fora, e as bactérias em meu aparelho digestivo, todos viemos de uma única forma de vida ancestral que deu origem a toda a variedade atual. Isso ocorreu ao longo do tempo, a um ritmo determinado, é claro. Não dá para tirar um mamífero de uma bactéria de uma hora para a outra, deve haver passos intermediários. Então, entendemos que as formas de vida mais recentes não podem ter ocorrido muito cedo na história da evolução. Portanto, se você conseguisse encontrar fósseis de mamíferos, indisputáveis, de 400 milhões de anos, isso causaria muita dor e sofrimento, porque os biólogos diriam, não pode ser. Então, essa é uma observação possível, um teste, que forçaria a uma revisão completa da teoria da evolução.   O debate entre evolução e criacionismo, se evolução deve ser ensinada nas escolas, se o criacionismo deveria ser ensinado por professores de ciências, causa muita polarização, muita polêmica, desencadeia discussões apaixonadas. A evolução parece ser o único tema, no currículo de ciências, a provocar reações tão extremas. Por quê? É precisamente porque as pessoas resistem muito à idéia de que surgimos por meio de um processo puramente material, a partir de outras formas de vida. É uma idéia que preocupa. É vista como uma ameaça à dignidade humana, talvez. E também uma ameaça às crenças religiosas, porque as crenças religiosas dizem que os seres humanos são muito especiais, foram deliberadamente criados por um Criador bondoso que se importa com elas. Enquanto que a explicação científica para a origem dos seres humanos entra em conflito com esse ponto de vista. Creio que é por isso que a evolução causa uma reação tão emocional.   Mas essa ameaça é real? O sentimento humano de ser protegido por um Criador onipotente está mesmo sob ameaça da teoria da evolução, ou se trata de um mal-entendido? Creio que é possível aceitar a evolução totalmente e, ao mesmo tempo, preservar crenças religiosas e teológicas. E digo isso porque há milhões de pessoas que fazem isso. Incluindo inúmeros cientistas, que aceitam a religião, têm sentimentos religiosos, e aceitam as evidências a favor da evolução, incluindo a evolução da espécie humana. Um de meus melhores alunos de doutorado, que hoje é um biólogo evolucionista muito produtivo, é católico devoto e praticante. O papa anterior (João Paulo II) escreveu um documento dizendo que a evidência a favor da evolução é tão forte que a teoria deveria ser aceita como mais que pura especulação. No entanto, o papa disse que isso não significa que existe uma explicação biológica para a parte mais íntima do ser humano, a alma. Ele reserva uma parte para a religião. Creio que muitos líderes religiosos, e muita gente religiosa, não têm problema nenhum com a evolução. A Igreja Católica tem aceito a evolução há muito tempo. No entanto, é claro que isso significa que há certas afirmações específicas na Bíblia que não são literalmente compatíveis com a evolução. Mas também não são compatíveis com física, geologia, ou astronomia, ou nenhuma das outras ciências. Se você acredita que o mundo foi criado em seis dias, ou se acredita que o mundo foi criado há 100.000 anos, isso não é aceitável para astrônomos, geólogos ou físicos. Você tem de estar preparado para reinterpretar os textos religiosos, o que é exatamente o que os teólogos fazem. Bons teólogos não acreditam que tudo que aparece escrito nas versões em inglês, em português ou espanhol da Bíblia é para ser tomado exatamente como verdade literal.   Mas as religiões pararam de perseguir astrônomos há séculos, enquanto que professores de biologia ainda encontram problemas. A resistência às novas verdades científicas que vêm da biologia é maior por quê...? É por causa do conteúdo emocional, eu acho. As pessoas não se preocupam muito se a física entra em conflito com a Bíblia, mas creio que, porque são humanas, elas se preocupam com a biologia. Mas eu gostaria de destacar que são apenas algumas lideranças religiosas, e algumas pessoas religiosas, que condenam a evolução. Nos países onde a maioria da população é católica, como Espanha, Portugal, ou na maior parte da América Latina, não há conflito. O conflito surge onde há versões fundamentalistas do cristianismo, que tomam a Bíblia literalmente. Mas isso não é um problema entre as religiões maiores, majoritárias. Há muitas pessoas que têm crenças religiosas e acreditam na evolução, incluindo cientistas. Mas elas são cuidadosas em separar uma coisa da outra. Elas defendem que há coisas que a ciência não deve fazer, há lugares onde a ciência não deve entrar, por exemplo, na questão dos valores, da ética, da moralidade, coisas sobre as quais a ciência não tem nada de útil a dizer, e onde não deveria se meter. Mas, em compensação, quando se tenta explicar o mundo natural, quando se tenta explicar as coisas que acontecem na natureza, com animais, plantas, rochas ou estrelas, ou átomos, a abordagem científica não pode admitir a religião. É preciso separar e manter separado. Porque quando se propõe que a ciência aceite explicações religiosas, aí você tem idéias que não podem ser testadas. Ao postular que algo foi causado por um ser sobrenatural, ninguém tem a menor idéia de como determinar se essa é uma explicação verdadeira ou falsa. E se você pode dizer que um ser sobrenatural é responsável por esse evento em particular, por exemplo, a origem dos seres humanos, então você pode dizer que ele é responsável por tudo, pelo terremoto que aconteceu na China. Gostaríamos de parar de tentar entender os terremotos, porque alguém disse que há uma causa sobrenatural? A ciência tem de se manter materialista em suas explicações, o que não significa que a visão de mundo do cientista tenha de ser materialista. O materialismo não cabe quando o assunto é amor, ou ética, mas quando tentamos entender o mundo natural, é essencial.   Mas há conflitos. A ciência pode informar as decisões morais. Para tomar uma decisão sobre certo e errado, você precisa de fatos, e os fatos têm de vir da ciência, do método científico. Certamente. Mas não a decisão sobre o que é certo e errado. A ciência pode descrever o que ocorre com o óvulo, da fertilização até o nascimento, e pode dizer, talvez, quando o cérebro se forma, quando o cérebro está pronto e descrever outros aspectos do desenvolvimento do embrião, mas a ciência não pode lhe dizer se o aborto é moral ou imoral.   O uso de células-tronco extraídas de embriões humanos em pesquisas científicas causa muita polêmica no Brasil. O sr. acha que esse uso deve ser autorizado? Minha opinião pessoal quanto a isso não tem mais peso que a de qualquer outra pessoa. Porque é só isso, a minha opinião. Se eu responder a essa pergunta, será uma resposta baseada em meus valores pessoais, não uma resposta científica. Eu sou um cientista, e não posso fazer uma afirmação científica sobre esse assunto. Posso falar sobre as conseqüências científicas de certas linhas de pesquisa. Posso dizer que, se tal e tal pesquisa for feita... e eu não sou um especialista em células-tronco, mas um biólogo com mais conhecimento dessa área poderia dizer... que se as pesquisas forem feitas, tal e tal tecnologia médica poderia se tornar viável . Mas esta seria uma declaração científica, que não é a mesma coisa que uma declaração de certo e errado. Certo e errado não pode ser uma afirmação científica.   Se o Brasil vier a viver uma radicalização como a que existe nos EUA em torno do ensino da evolução e do criacionismo, qual seria seu conselho aos cientistas e professores brasileiros? Meu conselho seria que os cientistas venham a público, que tentem educar a população sobre essas questões. Eles têm de tentar explicar a diferença entre uma abordagem científica e uma abordagem não científica. Eles têm de tentar explicar às pessoas que dependemos da ciência para avanços tecnológicos com muitos resultados práticos. E essas aplicações não podem ser mais fortes do que o entendimento básico de ciência que temos a respeito do mundo natural. Os cientistas tem de enfatizar que os benefícios da ciência só virão se ensinarmos às pessoas como avaliar evidências. Em ciência, sempre que alguém faz uma afirmação, a resposta é: qual a sua evidência? Em ciência, suas afirmações são tão fortes quanto a evidência que se apresenta. Portanto, não podemos admitir uma afirmação para a qual não ha evidência concreta. É preciso que todos os cientistas tentem explicar às pessoas qual é a natureza da ciência, e manter a ciência separada da religião. Não para fazer pouco caso da religião. As pessoas têm sua liberdade de crença religiosa, mas precisam entender que isso tem de ficar do lado de fora da aula de ciências. Assim como a ciência deve ficar fora dos ensinamentos das igrejas sobre moralidade. Creio, ainda, que os cientistas devem fazer todo o esforço para contestar as alegações feitas por criacionistas. Então, se houver algum criacionista, algum defensor do design inteligente (movimento que propõe que a vida é complexa demais para ter surgido por meios estritamente naturais), alguma figura religiosa que vá à televisão para fazer alegações falsas sobre a evolução, então os cientistas devem procurar o canal de TV, a revista, ou o veículo que for, e dizer, não, isso é errado, não é o que entendemos do ponto de vista científico, e aqui está o que é correto, e eis o porquê. Meu outro conselho seria: não crie uma oposição entre ciência e religião. Há algumas pessoas no meu campo que são ateus bem agressivos. Você talvez já tenha ouvido falar em Richard Dawkins (biólogo britânico que defende a incompatibilidade entre ciência e religião. Seu livro mais recente é Deus, um Delírio)?   O senhor acha que a participação de cientistas, principalmente biólogos, em movimentos de difusão do ateísmo acaba prejudicando os esforços em favor do ensino das ciências? Creio que, provavelmente, sim. E a razão disso é: se você diz às pessoas que elas devem escolher entre ciência e religião, que é impossível ter os dois, então as pessoas vão escolher a religião. Por quê? Porque traz mais satisfação emocional. Religião satisfaz necessidades muito profundas de muita gente. Negar às pessoas o conforto dessas crenças é muito contraproducente e, eu diria, muito cruel. Minha mensagem para os cientistas, então, seria: reconheçam a humanidade das pessoas. Tentem mostrar a elas que é possível conciliar o ponto de vista científico com o religioso, em vez de criar uma dualidade. Mas é claro que muitos religiosos, principalmente evangélicos fundamentalistas, insistem nessa dualidade. Insistem que é preciso escolher.

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