Cientista político pede estudo do papel dos genes no voto

A genética não fixa o destino, diz James Fowler, mas sem ela não é possível entender o comportamento político

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

06 de novembro de 2008 | 17h00

É preciso entender tanto a genética do eleitor quanto o ambiente em que vive para chegar a uma explicação das decisões políticas que ele toma, desde a escolha de um partido e até a predisposição para votar, diz o cientista político James Fowler, da Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD), em artigo publicado na edição desta semana da revista Science.   "É verdade que o início do século 20 viu algumas combinações terríveis de genética e política, mas isso foi antes de entendermos a importância da diversidade e a complexidade das interações entre gene e ambiente", disse Fowler em entrevista ao estadao.com.br. "Nós descartamos a instituição da escravidão, e tenho confiança de que ela não voltará. Da mesma forma, sinto confiança de que as idéias da eugenia jamais voltarão a ser aceitas".   No texto para a Science, Fowler e o co-autor, Darren Schreiber, também da UCSD, argumentam que tanto a ciência política quanto os estudos sobre as bases biológicas do comportamento humano avançaram muito nas últimas décadas, mas que cada um dos campos de estudo é limitado, e que a superação das limitações exigirá uma integração dessas áreas.   "A evidência disponível sugere que é preciso ter informação sobre os genes e sobre o ambiente para se fazer previsões sobre o comportamento político", disse Fowler, acrescentando que deve haver centenas de genes envolvidos. "A genética torna o estudo da política mais complexo, e essa complexidade não se deixa dominar facilmente".   Estudos já realizados sobre essa interseção entre genética e comportamento político, mencionados no artigo para a revista científica, indicam que, embora a opção política de uma pessoa pareça depender fortemente do meio social, a opção por envolver-se em política - votando ou filiando-se a um partido, por exemplo - parece ter forte componente genético.   "Isso não significa que a genética fixe o destino", disse Fowler. "Algumas pessoas baixas são muito boas em basquete, a despeito de o esporte favorecer os mais altos. Da mesma forma, pessoas com genes que não as predispõem a votar podem participar da política, se tiverem as experiências de vida adequadas".   O cientista diz que é preciso olhar para a combinação de genes e ambiente para explicar o comportamento político. "E entender esse comportamento pode nos ajudar a atingir as nossas metas sociais. Se acharmos que um alto comparecimento às urnas é bom, isso poderá nos ajudar a descobrir novas formas de encorajar a participação".   Durante muito tempo, diz Fowler, a ciência política pressupôs que as pessoas não tinham nenhuma predisposição inata de personalidade, que é fácil trocar uma pessoa por outra, que bebês trocados no nascimento adotarão a postura política do meio em que forem criadas. "A história da genética é a história de como não somos engrenagens na máquina. Em vez disso, cada um de nós é um indivíduo único, com predisposições e experiências políticas únicas".

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