Flávia Miranda / Projeto Tamanduá
Flávia Miranda / Projeto Tamanduá

Cientistas brasileiros descobrem seis novas espécies de tamanduás-anões

O pequeno animal da floresta amazônica era classificado como uma só espécie, mas análises genéticas e anatômicas mostraram que são pelo menos sete

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2017 | 13h00

Uma equipe de cientistas brasileiros descobriu seis novas espécies do tamanduá-anão, um mamífero que vive nas florestas tropicais da região amazônica e da América Central. O pequeno animal, também conhecido como tamanduaí, ou tamanduá-seda, era classificado originalmente em uma única espécie (Cyclopes didactylus). Mas as análises genéticas e anatômicas revelaram que o gênero Cyclopes se divide em pelo menos sete espécies distintas.

O estudo, publicado hoje na revista científica Zoological Journal of the Linnean Society, foi liderado pela zoóloga Flávia Miranda, coordenadora da ONG Projeto Tamanduá. A equipe de cientistas analisou 33 amostras de DNA e examinou mais de 300 espécimes do raro mamífero em coleções de museus de diversos países.

Os cienstistas descobriram que o gênero Cyclopes não se resume à espécie C. didactylus, mas geneticamente bem mais diversa, compreendendo pelo menos sete espécies. Além do C. didactylus, eles revalidaram três espécies já sugeridas em estudos anteriores: o Cyclopes ida, ao norte do rio Amazonas e na margem esquerda do rio Negro, o Cyclopes dorsalis, na América Central e na costa sul-americana do Oceano Pacífico, e o Cyclopes catellus, na Bolívia.

Além disso, foram identificadas mais três espécies completamente novas: Cyclopes thomasi - cujo nome homenageia o naturalista britânico Oldfield Thomas, que contribuiu no passado para o conhecimento sobre o tamanduá-anão -, o Cyclopes xinguensis, da bacia do rio Xingu, e o Cyclopes rufus, de Rondônia, cujo nome remete à sua coloração avermelhada.

"Ao longo de 10 anos, realizamos 19 expedições de com duração de dois a três meses pela América do Sul para procurar o pequeno tamanduá. Os intensos esforços dos museus e laboratórios também foram fundamentais para a descoberta", disse Flávia.

"Há quatro anos, nós descrevemos uma nova espécie de tapir da Amazônia brasileira e agora descobrimos seis novas espécies de tamanduás-anões. Provavelmente há muito mais novas espécies esperando para serem descritas em museus e na natureza. E elas podem ser extintas antes que tenhamos a chance de conhecê-las", disse outro dos autores do estudo, o biólogo e geneticista Fabrício Santos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Pequenos animais noturnos que vivem nas copas das árvores, os tamanduás-anões são considerados os tamanduás menos estudados. Além de viverem na região amazônica, o tamanduá-anão também tem populações isoladas em áreas do Nordeste.

Segundo Flávia, os cientistas já imaginavam que poderia haver mais de uma espécie de tamanduá-anão, pois as duas populações conhecidas no Brasil - a da Amazônia e a do Nordeste - ficam isoladas por mais de mil quilômetros.

A hipótese inicial era que no Pleistoceno, quando a floresta Amazônica e a Mata Atlântica sofreram retração, com o surgimento da Caatinga entre elas, as duas populações tenham ficado definitivamente isoladas e poderia ter ocorrido o processo de especiação - isto é, a espécie nordestina, naquele ambiente distinto, poderia ter se diferenciado geneticamente, dando origem a uma nova espécie.

"Quando inciamos as expedições, começamos a ver que eram sete espécies bem marcadas, com diferenças genéticas, morfológicas e biogeográficas. Cada uma delas ocorre em uma região distinta e cada região é separada das outras por grandes rios", explicou.

Flávia afirma que as expedições foram extremamente trabalhosas. Os cientistas levaram nada menos que dois anos até conseguir capturar o primeiro tamanduá-anão. "É um bicho muito difícil de localizar. Ele é pequeno, pesa apenas 120 gramas e é um animal noturno. Mas, ao contrário de vários animais noturnos, seus olhos não brilham com o reflexo das lanternas. Ele é silencioso, não emite vocalizações e se desloca muito pouco", contou.

Para localizar os animais, era preciso caminhar pela floresta e observar as árvores atentamente - o tamanduá-anão raramente desce ao chão.

"É como procurar uma agulha em um palheiro. Quando encontrávamos um deles, subíamos na árvore com rapel e ele era capturado com as mãos e colocado em um saco de pano. No chão, o animal era anestesiado e fazíamos a biometria, análise das características do pelo e coleta de sangue para análise genética. Fazíamos também uma avaliação de seu estado de saúde e depois o soltávamos de volta na floresta", disse Flávia, que também é médica veterinária.

Conservação incerta. Recém-descobertas, as novas espécies têm seu estado de conservação ainda incerto, segundo Flávia. "Embora os tamanduás-anões em geral ainda estejam espalhados pela região da Amazônia, muitas das novas espécies podem estar sob grande pressão do desmatamento, da mineração e da agricultura, entre outras ameaças", disse a pesquisadora. 

A Organização Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) classifica a população do tamanduá-anão no Nordeste na categoria "dados deficientes", evidenciando o escasso conhecimento sobre ela. Toda a população amazônica aparece na lista da IUCN na categoria "pouco preocupante".

De acordo com os pesquisadores, o tamanduá-anão é o mais noturno e mais arborícola - isto é, que vive preferencialmente nas árvores - dos tamanduás e se alimenta predominantemente de formigas. Como todos os tamanduás, ele tem hábitos solitários, exceto na época reprodutiva - e, ao contrário do que acontece com os demais, o tamanduá-anão macho ajuda nos cuidados com a cria. 

Segundo Flávia, a identificação correta das seis espécies é fundamental para a conservação do tamanduá-anão. "Para preservar uma espécie é preciso conhecê-la primeiro. Todas as análises que já haviam sido feitas sobre esse animal partiram da premissa errada de que havia uma só espécie, o que poderia levar a conclusões erradas e, consequentemente, a estratégias erradas de conservação."

Agora, depois de 10 anos de trabalho, os cientistas finalmente podem analisar o estado de conservação de cada uma das seis espécies, estudar onde elas estão distribuídas e avaliar cada uma das ameaças que elas vêem sofrendo. "Temos trabalho para o resto da vida", comentou Flávia.

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