Cientistas criam clones de camundongos congelados há 16 anos

Japoneses crêem que esse pode ser o primeiro passo para trazer mamíferos extintos, como mamutes, de volta

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

03 de novembro de 2008 | 20h01

Uma equipe de pesquisadores japoneses conseguiu produzir células-tronco e clones saudáveis a partir de material extraído do cérebro de dois camundongos mantidos congelados, durante 16 anos, a uma temperatura de 20º C negativos. Os autores do trabalho, descrito na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), esperam que a técnica possa vir a ser usada para ressuscitar espécies extintas de mamíferos, como mamutes. O experimento foi realizado com animais que não haviam recebido tratamento especial para resistir ao dano causado às células pelo processo de congelamento.    A história da clonagem de animais   O principal autor do artigo, Teruhiko Wakayama, do Instituto Riken, diz que não é possível afirmar se o mesmo procedimento funcionaria em seres humanos, seja nos que tiveram seus corpos deliberadamente congelados ou em múmias encontradas no gelo, como o homem neolítico europeu Otzi.   "A taxa de sucesso da clonagem é muito baixa, e depende da espécie", diz ele. "Não tenho idéia de se é possível fazer um clone humano, nem mesmo se o núcleo das células do doador estiver em bom estado. E, na minha opinião, não deveríamos nem tentar, ao menos enquanto não tivermos mais informações sobre animais".   À esquerda, um dos filhotes clonados com sucesso do animal congelado. Divulgação/PNAS (2008)   Os cientistas usaram material tirado do cérebro dos camundongos congelados porque os núcleos das células cerebrais foram os mais capazes de gerar embriões quando implantados em óvulos "limpos" - isto é, dos quais havia sido eliminado o material genético original. A técnica, chamada de transferência nuclear, foi a mesma utilizada na produção da ovelha Dolly.   No entanto, relata a equipe japonesa em seu artigo, essa transferência direta não foi capaz de levar ao desenvolvimento completo do embrião. Para conseguir os clones vivos, os cientistas tiveram que realizar uma segunda rodada de transferência nuclear. Para isso, eles primeiro usaram a transferência nuclear para estabelecer linhagens de células-tronco a partir do DNA das células congeladas dos camundongos e, em seguida, valeram-se do núcleo dessas células-tronco para produzir os embriões que foram levados a termo.   "Uma das razões é que o processo de criar as células-tronco repara parte do dano presente no material genético original", diz Wakayama, explicando o sucesso da transferência dupla. "Mas outra causa é a reprogramação", diz ele. Reprogramação é o processo pelo qual o material genético de uma célula adulta, quando introduzido num óvulo limpo, é modificado pelo novo ambiente e passa a funcionar de forma semelhante ao conjunto de genes de um embrião recém-formado. "Na minha opinião, a primeira  transferência nuclear reprogramou apenas algumas partes e, por isso, a taxa de sucesso não foi tão grande. No entanto, a segunda transferência reprogramou as partes remanescentes, aumentando o sucesso".   O processo criou quatro camundongos clones dos animais congelados, dos quais um morreu logo após o nascimento e outro foi devorado pela mãe - os dois remanescentes sobreviveram, saudáveis, e foram capazes de gerar descendentes quando cruzados com fêmeas. Além dos clones, foram geradas nove quimeras, ou camundongos produzidos a partir da fusão do código genético dos animais congelados com o de outros embriões de camundongo.   Os cientistas acreditam que as células cerebrais se mostraram as melhores como doadoras de material genético para o experimento porque os açúcares presentes naturalmente no cérebro podem funcionar como um fator de proteção, reduzindo o dano causado pelo processo de congelamento.   "Paradoxalmente, o processo de congelamento e degelo pode até mesmo ter permitido que as células do cérebro tivessem um potencial para serem reprogramadas melhor que o de núcleos de células vivas", diz o artigo na PNAS.   Wakayama espera que a tecnologia esteja madura para permitir tentar a criação de um mamute vivo - com o uso de um núcleo de célula de mamute congelado e um óvulo de elefante - dentro de 20 anos.   "Ainda nem conhecemos direito o mecanismo de reprodução normal dos elefantes", diz ele. "Os principais obstáculos são a transferência do núcleo da célula entre espécies diferentes, e a transferência de embriões entre espécies diferentes".

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