Cientistas criam mosquito mutante contra a malária

Centenas de insetos têm sido modificados geneticamente na esperança de que parem de transmitir a doença

AP

19 de junho de 2008 | 18h44

Em um laboratório pequeno e úmido em Londres, mosquitos voam em grande grupos dentro de gaiolas cobertas com redes. Eles estão sendo estudados em busca de maneiras para controlar a malária.  Cientistas têm modificado geneticamente centenas de insetos, esperando fazê-los parar de transmitir a doença mortal.  Confrontados com uma difícil batalha contra a malária, cientistas procuram cada vez mais novos caminhos, que poderiam parecer improváveis há apenas alguns anos atrás. "Nós não temos onde nos apoiar", disse Andrea Crisanti, a especialista em malária responsável por modificar geneticamente mosquitos no Imperial College de Londres. "Já é tempo de tentarmos algo novo." A malária mata aproximadamente três milhões de pessoas no mundo inteiro todo ano, principalmente na África Subsaariana. Milhões de redes contra mosquitos foram distribuídas e cidades em todo o continente foram pulverizadas com inseticidas. Mas essas medidas não conseguiram reduzir significativamente os casos de malária.Depois de uma série de iniciativas frustradas, as Nações Unidas anunciaram recentemente uma campanha para fornecer redes protetoras para qualquer um que precise delas até 2010.  Alguns cientistas pensam que criar mosquitos mutantes resistentes à doença pode funcionar melhor.  "Nós ainda temos o fardo crescente da malária", disse Yeya Toure, uma especialista em doenças tropicais na Organização Mundial da Saúde (OMS). "Sob tais circunstâncias, nós temos que investigar se mosquitos geneticamente modificados poderiam fazer uma diferença", disse Toure, que não está envolvido com as pesquisas do Imperial College.  A Fundação Bill e Melinda Gates achou o projeto tão promissor que investiu cerca de US$ 38 milhões (R$ 61 milhões) em estratégias genéticas para parar os mosquitos transmissores de doenças como malária e dengue.  "Essa é uma daquelas inovações high-tech e de alto risco que mudariam fundamentalmente o peso das forças entre mosquitos e humanos", disse Regina Rabinovich, diretora de desenvolvimento em doenças infecciosas na Fundação Gates.Os mosquitos criados para serem imunes à malária poderiam quebrar o ciclo de transmissão da doença. "Esse é o nirvana do controle da malária", disse Rabinovich. "Transformaria potencialmente o campo de trabalho." Em 2005, Crisanti provou ser possível criar um mosquito geneticamente modificado inserindo um gene que brilhava verde fluorescente em machos.Entre outras possibilidades, ele e sua equipe estão planejando agora criar machos estéreis do mosquito, para acasalarem com fêmeas selvagens, impedindo, assim, o crescimento da população. Eles também estão tentando 'construir' um mosquito resistente à malária.  No ano passado, pesquisadores americanos criaram mosquitos resistentes a um tipo de malária que infecta ratos. Outros estão alterando o DNA de mosquitos que transmitem a dengue.Mas nem todo mundo pensa que supermosquitos são uma boa idéia. Alguns cientistas pensam que há questões genéticas demais a serem resolvidas para que mosquitos geneticamente modificados funcionem.  O parasita causador da malária, que os mosquitos transmitem para os humanos, é simplesmente bom demais em se esquivar de quaisquer medidas que os cientistas inventem para proteger o mosquito, disse Jo Lines, um especialista da London's School of Hygiene and Tropical Medicine. Quantidade pode ser um problema, também. "Você vai precisar produzir bilhões desses mosquitos para que isso possa funcionar", disse Lines.  Alguns ambientalistas estão preocupados que mosquitos geneticamente modificados possam desencadear problemas nos ecossistemas.  "Será que nós não podemos simplesmente dar redes para as pessoas ao invés de olhar para essas soluções tecnológicas extremamente complexas que mexem com o equilíbrio delicado da natureza?", perguntou Gillian Madill, da ONG Friends of The Earth em Washington. Rabinovich que testes rigorosos seriam feitos antes de liberar os mosquitos na natureza. "Não é legal brincar com a mãe natureza", ela disse. "Mas se você pode encontrar uma outra maneira de barrar a malária, isso não é algo que possamos desprezar sem analisar completamente." No próximo ano, Crisanti espera finalizar os planos para liberar os mosquitos modificados em teste no Sul da Itália. Lá, milhões de insetos serão liberados para determinar coisas como sua interação com os mosquitos selvagens e quantos dos modificados seriam necessários para barrar a malária.  O pesquisador admitiu que podem ocorrer conseqüências não esperadas dessa interação, embora ele não possa prever quais seriam. No entanto, o cientista disse que é um risco que vale a pena aceitar.

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