Chris Whittier/Divulgação
Chris Whittier/Divulgação

Cientistas criam nova estratégia de vacinação contra Ebola

Nova vacina baseada no citomegalovírus forneceu proteção prolongada contra o Ebola em camundongos; pesquisadores pretendem disseminá-la entre macacos, para evitar novos surtos

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

25 Março 2015 | 04h00

Cientistas desenvolveram nova vacina capaz de imunizar macacos contra o vírus de Ebola de forma duradoura. Com base no citomegalovírus - agente infeccioso da mesma família dos vírus da catapora e da herpes -, a vacina tem potencial para ser usada em uma estratégia de prevenção da infecção de populações selvagens de macacos na África. O estudo, publicado nesta quarta-feira, 25, na revista científica Vaccine, foi coordenado por Michael Jarvis, da Universidade de Plymouth.

Segundo os pesquisadores, os macacos africanos são o principal vetor da transmissão do vírus Ebola para populações humanas. Por isso, a prevenção da infecção nos macacos poderia reduzir, no futuro, a incidência de novos surtos da doença. O vírus do ebola também é altamente letal para os macacos e é visto como a principal ameaça à sobrevivência selvagem desses animais.


A principal novidade, além da longa duração da imunização, é que a nova vacina utiliza uma abordagem inovadora de disseminação. Como os macacos vivem em regiões remotas e inacessíveis, vaciná-los individualmente da forma convencional é considerado praticamente impossível. Mas o citomegalovírus se alastra facilmente entre os indivíduos, o que espalharia a vacina entre as populações de macacos sem necessidade de imunização direta.

A nova abordagem, de acordo com os pesquisadores, traz esperanças de que seja possível estabilizar a disseminação do ebola entre macacos, protegendo ao mesmo tempo os humanos contra os efeitos devastadores do vírus. Graças ao citomegalovírus, de acordo com eles, a vacina é muito imunogênica - isto é, capaz de provocar uma resposta do sistema imunológico.

O novo estudo é a ampliação de uma pesquisa publicada em 2011, na qual a mesma equipe de cientistas mostrou pela primeira vez, em testes com camundongos, que a vacina com base no citomegalovírus poderia fornecer proteção contra o vírus do Ebola. No entanto, a maior parte das vacinas desenvolvidas em estudos com camundongos - incluindo o estudo de 2011 -, só consegue proteger contra a infecção do ebola por um curto período após a imunização. Em geral, a proteção dura apenas seis semanas. O novo estudo mostra que, em camundongos, a imunidade induzida pelo citomegalovírus pode durar até 14 meses - cerca da metade da expectativa de vida do animal -, com a aplicação de uma dose única. Nos testes, a imunidade induzida pela nova vacina foi capaz de proteger os camundongos contra o Ebola por pelo menos 119 dias após a vacinação.

De acordo com os cientistas, a longa duração da imunização será fundamental para o eventual sucesso da abordagem de vacinação por disseminação. Essa característica também é considerada animadora para o futuro desenvolvimento de vacinas baseadas em citomegalovírus para imunizar humanos contra o ebola.

Testes clínicos. O próximo passo, já em curso,é realizar em macacos os testes clínicos da nova vacina baseada em citomegalovírus, de acordo com os cientistas. Os resultados, segundo eles, serão publicados nos próximos meses. Várias questões, no entanto, permanecem em aberto, incluindo a natureza da imunidade conferida pelas vacinas de disseminação, já que no novo estudo os camundongos foram inoculados diretamente.

"Precisamos andar antes de começar a correr, mas esse estudo fornece um pequeno avanço. Seja como for, essa abordagem de disseminação fornece uma potencial solução factível para o problema, por hora incontornável, de atingir alta cobertura de vacinação em populações de macacos", afirmou Jarvis.

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