Cornell University
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Cientistas descobrem como a obesidade reduz a sensibilidade do paladar

Estudo feito por pesquisadores americanos mostra que camundongos obesos têm 25% menos papilas gustativas, em comparação aos animais magros; fenômeno foi provocado pelo efeito inflamatório característico do acúmulo de gordura corporal

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

20 Março 2018 | 17h04

Um novo estudo realizado por cientistas da Universidade Cornell (Estados Unidos) revela por que o ganho de peso pode reduzir a sensibilidade ao sabor da comida - algo que já havia sido verificado em estudos anteriores, mas cuja explicação era até agora desconhecida. 

Segundo a nova pesquisa, feita em camundongos, a inflamação produzida pela obesidade reduz efetivamente o número de papilas gustativas na língua dos animais. Os resultados foram publicados nesta terça-feira, 20, na revista científica Plos Biology. O estudo foi liderado por Andrew Kaufman e Robin Dando, ambos da Universidade Cornell, sediada em Nova York. "Nossos resultados podem levar a novas estratégias terapêuticas para aliviar a disfunção do paladar em pessoas obesas", disse Dando.

De acordo com os autores, uma papila gustativa compreende de 50 a 100 células de três tipos principais, cada uma delas com diferentes papéis na sensibilidade para os cinco sabores primários: salgado, doce, amargo, azedo e umami. Essas células, segundo eles, são substituídas rapidamente, com uma vida média de apenas 10 dias. 

Para estudar as modificações nas papilas gustativas relacionadas à obesidade, os autores alimentaram um grupo de camundongos com uma dieta normal com até 14% de gordura e um outro grupo com uma dieta programada para levar à obesidade, com 58% de gordura.

Os resultados após oito semanas não causaram surpresa: os camundongos alimentados com a dieta mais "gorda" apresentavam um peso um terço maior que aqueles que receberam a dieta normal. 

Um resultado, no entanto, foi inesperado. Os cientistas notaram que os camundongos obesos tinham 25% menos papilas gustativas que os animais magros. Não houve mudanças no tamanho médio ou na distribuição dos três tipos principais de células das papilas que restaram.

A substituição das células das papilas gustativas, segundo Dando, normalmente aumenta quando há uma combinação equilibrada de morte celular programada - processo conhecido como apoptose - e a geração de novas células a partir de células progenitoras especiais.

No entanto, os cientistas observaram que a taxa de apoptose aumentava nos camundongos obesos, enquanto que o número de células progenitoras de papilas gustativas declinava - o que provavelmente explica a queda do número de papilas observada no experimento.

Os camundongos que eram geneticamente resistentes a se tornarem obesos não apresentaram esses efeitos, mesmo quando eram submetidos a uma dieta "gorda". Segundo o cientista, isso significa que os efeitos não eram provocados pelo consumo da comida gordurosa em si, mas sim pelo acúmulo de tecido adiposo (gordura).

De acordo com o cientista, sabe-se que a obesidade está associada a um estado crônico de inflamação de baixo grau. E que o tecido adiposo produz moléculas sinalizadoras - as citocinas - que favorecem a inflamação. 

Os autores também demonstraram que uma dessas moléculas, chamada TNF-alfa, tinha seus níveis aumentados nas papilas gustativas quando o camundongo era submetido à dieta rica em gordura. 

No entanto, camundongos geneticamente modificados para não produzirem TNF-alfa não tiveram redução das papilas gustativas, embora tenham ganhado peso. Por outro lado, ao injetar TNF-alfa diretamente a língua dos camundongos magros, os cientistas observaram uma redução das papilas gustativas, apesar do baixo nível de gordura corporal.

"Esses dados sugerem que a adiposidade bruta decorrente da exposição crônica a uma dieta rica em gordura está associada a uma resposta inflamatória de baixo grau, que causa uma perturbação nos mecanismos de equilíbrio da manutenção e renovação das papilas gustativas", disse Dando.

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