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Pesquisa mostra como pandas sobrevivem comendo apenas bambu

Animais gastam menos energia do que outros de mesmo porte; além disso, têm órgão vitais menores e glândulas com baixa atividade

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2015 | 17h00

Um grupo de cientistas da China e da Escócia descobriu como os pandas gigantes conseguem sobreviver se alimentando quase exclusivamente de bambu. O estudo, publicado nesta sexta-feira, 9, na revista Science, revela que o panda tem uma série de características que possibilitam uma grande economia de energia, incluindo pouca movimentação, órgãos menores que os de outros ursos e glândulas tireoides com baixíssima atividade.

De acordo com o autor principal da pesquisa, Fuwen Wei, da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim, já se previa que os pandas têm um gasto energético menor que outros animais - o que explicaria sua sobrevivência com uma dieta tão frugal. Mas ainda não se sabia exatamente por que o metabolismo deles é econômico. "O bambu corresponde a 99% do cardápio dos pandas. Sabíamos que para sobreviver com tão poucos nutrientes seria preciso um dispêndio muito baixo de energia. Mas até agora ninguém havia medido o funcionamento do metabolismo desse animal", disse Wei ao Estado. O pesquisador afirmou que estuda diversos aspectos da biologia dos pandas há mais de 30 anos. 

Segundo Wei, a equipe de pesquisadores estudou cinco pandas em cativeiro e três pandas selvagens e descobriram que eles têm apenas 38% do gasto médio de energia verificado em outros mamíferos terrestres do mesmo porte. "Os valores de dispêndio diário de energia dos pandas são substancialmente mais baixos que os dos coalas, por exemplo - e são mais próximos aos dos bichos-preguiça de três dedos", declarou Wei. No caso dos pandas selvagens, o gasto foi um pouco maior, mas, ainda assim, corresponde a apenas 45% dos gastos energéticos de outros mamíferos.

Depois disso, os cientistas instalaram rastreadores GPS em pandas selvagens, para verificar os padrões de movimentação desses animais. "Descobrimos que eles são muito menos ativos e se movimentam muito menos que outros ursos. Esse é um dos elementos que possibilita um gasto bem menor de energia", disse. 

Ao fazer essa descoberta, segundo Wei, os pesquisadores decidiram estudar o organismo dos pandas - e a investigação mostrou que a conformação dos órgãos dos animais também ajuda a economizar energia. "Além de se movimentar pouco, os pandas têm o cérebro, o rim e o fígado pequenos em relação a outros ursos. Com a pouca movimentação e alguns órgãos vitais menores, eles conseguem uma economia de energia importante", declarou Wei.

O grupo realizou em seguida uma série de estudos genéticos nos pandas e descobriram mais um fator que garante o baixo gasto de energia: os animais possuem uma variante de um gene que, em humanos, está associado à baixa atividade da glândula tireoide. "Os pandas têm uma variante específica de um gene chamado DUOX2 e isso faz com que eles tenham níveis de hormônios da tireoide que são apenas uma fração dos níveis normalmente encontrados em mamíferos. O nível de hormônio dos pandas, quando estão nas florestas, é comparável aos níveis encontrados em ursos pretos em estado de hibernação", declarou Wei.

De acordo com Wei, o grupo de cientistas também conseguiu descobrir como o panda, com gasto tão baixo de energia, consegue manter alta a temperatura corporal. "Os pandas têm uma temperatura corporal parecida com a dos humanos - entre 36 e 38 graus Celsius. Fazendo medições a partir de aparelhos de imageamento térmico, verificamos que a temperatura é garantida por uma pele muito grossa e com pelo muito espesso. Tomados em conjunto, os resultados dessa pesquisa explicam completamente como os pandas conseguem se manter vivos apenas mascando bambu o dia inteiro", explicou.

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