Cientistas descobrem molécula que poderá gerar nova classe de antibióticos

Princípio ativo identificado mostrou efeito, em camundongos, contra bactérias de difícil tratamento

FÁBIO DE CASTRO , O Estado de S. Paulo

09 Janeiro 2015 | 00h27

A partir da aplicação de um método inédito de cultivo de bactérias, um grupo internacional de pesquisadores descobriu uma nova molécula que poderá se tornar o princípio ativo de uma futura nova classe de antibióticos. 

A nova molécula, batizada de teixobactina - produzida por um microrganismo encontrado no solo -, mostrou eficácia, em camundongos, contra bactérias de difícil tratamento, sem que elas mostrassem sinais de desenvolvimento de resistência. Os resultados foram publicados nesta quarta-feira, 7, na revista Nature.

Com a descoberta da teixobactina, os autores acreditam que será possível colocar no mercado, dentro de até 10 anos, uma nova classe de antibióticos com modos de ação inovadores contra as bactérias que combate - algo que não acontece há quase 30 anos. 

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a escalada das bactérias resistentes a antibióticos caracteriza uma crise global. As verdadeiras inovações na área, no entanto, são cada vez mais raras, já que a descoberta de novos antibióticos é cara e tem retorno financeiro limitado, pois a prescrição exagerada desse tipo de medicamento tende a tornar as bactérias cada vez mais resistentes.

De acordo com o autor principal do estudo, Kim Lewis, da Universidade Northeastern (Estados Unidos), o novo método utilizado permite o cultivo de bactérias em seu habitat natural. Com os métodos existentes até agora, era preciso cultivá-las em pires de laboratório, mas apenas 1% delas sobrevivia nas condições artificiais.

"A primeira aplicação do novo método de cultivo foi a identificação da teixobactina, mas ele agora poderá ser usado para a descoberta de novas classes inteiras de antibióticos. Por abrir essas possibilidades, podemos dizer que a descoberta do novo método é até mais importante que a da molécula", disse Lewis.

O novo método foi possível graças ao desenvolvimento de um dispositivo batizado pelos cientistas de iChip, que permitiu o cultivo das bactérias em condições naturais. Em cada um dos minicanais de uma placa foi cultivada uma única linhagem de bactéria. O dispositivo foi então recoberto de duas membranas semipermeáveis e instalado no solo de onde haviam sido retiradas as amostras. 

Depois de um mês, quase metade das células haviam gerado colônias - sendo que em condições de laboratório 99% delas não sobrevivem. As amostras foram então transferidas para culturas in-vitro.

Em parceria com a start-up de biotecnologia NovoBiotic, dos Estados Unidos, os cientistas isolaram cerca de 10 mil culturas e as testaram em placas recobertas com a bactéria Staphylococcus aureus. Uma das bactérias retiradas do solo - batizada provisoriamente de Elephteria terrae, produziu a molécula com propriedades antibióticas teixobactina.

Segundo Lewis, enquanto a maior parte dos antibióticos atuam em proteínas no interior das células da bactéria para destruí-la, a teixobactina tem como alvo dois lipídios - moléculas de gordura - que são necessários para produzir a parede celular bacteriana. Com isso, se a bactéria desenvolver resistência em um deles, o outro ainda será um alvo viável para o medicamento. 

"O que qualifica a teixobactina como um promissor princípio ativo para uma nova classe de antibióticos é sua estrutura química e o modo de ação inovador", afirmou Lewis. 

Os cientistas testaram a molécula, com sucesso, em camundongos infectados pela linhagem MRSA da bactéria S. aureus, por pneumococos, pelo bacilo de Koch e pela bactéria Clostridium difficile. A teixobactina, no entanto, tem uma limitação: ela só funciona com bactérias classificadas como "gram-positivas", enquanto a maior parte das bactérias resistentes a antibióticos - como Klebsiella, Echerichia coli e Pseudomonas - são "gram-negativas".

Ineficaz contra superbactérias. Segundo o diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Luis Fernando Aranha Camargo, o principal trunfo teixobactina - a eficácia contra a  Staphylococcus aureus -, ainda não é uma vitória contra as chamadas "superbactérias". 

"A S. aureus é uma bactéria importante, que pode causar infecções graves, mas não é uma bactéria multirresistente e já existem antibióticos para ela. A descoberta é relevante, mas as bactérias que realmente causam preocupação hoje são gram-negativas. Para algumas delas realmente não há alternativas", disse Camargo.

Camargo alerta que as infecções por "superbactérias" não são comuns e não devem criar pânico, embora sejam motivo de preocupação para a comunidade científica e médica.  "Não podemos passar a ideia de que as bactérias multirresistentes estão soltas no ar como uma ameaça. Elas são adquiridas geralmente em ambiente hospitalar, por pessoas em situação de muita fragilidade, em longos períodos de internação e submetidas a uso intenso de antibióticos", explicou.

Segundo ele, além de não agir contra as bactérias mais resistentes, a teixobactina ainda não é uma droga e levará anos para chegar ao mercado. "Trata-se de um princípio ativo e, para que se transforme em uma droga para uso humano, terá que passar por inúmeras modificações e testes clínicos. Ao ser testada em animais, a nova molécula passou apenas o estágio zero do desenvolvimento de fármacos. No passado, muitas moléculas promissoras foram anunciadas e não resultaram em medicamentos no mercado", explicou.

Para Camargo, o novo método de cultivo de bactérias de fato é mais promissor que a própria molécula descoberta. "Ao mostrar eficiência para identificar essa molécula, o novo modelo também poderá descobrir outras. Os pesquisadores também poderão fazer novas variantes da molécula, mudando sua característica bioquímica para conseguir outras drogas", declarou.

Luis Caetano Antunes, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afirma que as limitações da teixobactina não diminuem a importância da descoberta. "Não me preocupo muito com as limitações. A situação hoje é tão dramática que uma droga capaz de agir em bactérias gram-positivas já é uma conquista excelente. Se a descoberta de uma nova droga já é uma ótima notícia, a promessa de termos uma nova classe de antibióticos é algo que devemos comemorar", afirmou.

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