ESO/L. Calçada
ESO/L. Calçada

Cientistas descobrem planeta com três sóis

Em estudo publicado na 'Science', pesquisadores americanos revelam primeiro planeta em um sistema triplo de estrelas

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

07 Julho 2016 | 14h00

SÃO PAULO - Astrônomos que buscam novos planetas fora do Sistema Solar já haviam encontrado alguns mundos que giram em torno de sistemas duplos de estrelas, trazendo à memória a famosa cena da saga Star Wars na qual o personagem Luke Skywalker observa um duplo pôr-do-sol em seu planeta natal, Tatooine.

Mas a realidade pode ser mais exótica que a ficção: uma equipe de cientistas americanos acaba de anunciar a descoberta do primeiro planeta em órbita em torno de um triplo sistema estelar. 

Em artigo publicado nesta quinta-feira, 7, na revista Science, os autores da pesquisa explicam que, dependendo da estação do ano no novo planeta, um hipotético habitante viveria sob constante luz do dia, ou apreciaria um triplo pôr-do-sol diariamente. Mas cada estação dura bem mais que uma vida humana.

A descoberta não é apenas curiosa. Segundo os pesquisadores, a órbita de um planeta nesse tipo de sistema deveria ser tão instável que ele acabaria ejetado para longe de suas estrelas. Mas, como o novo planeta sobreviveu, a inesperada observação sugere que a presença de planetas em órbita em torno de sistemas triplos pode ser mais comum que se imaginava.

O grupo, liderado por cientistas da Universidade do Arizona (Estados Unidos), utilizou imagens do telescópio VLT (Very Large Telescope), operado pelo Observatório Europeu do Sul (ESO) no Chile.

O planeta, batizado de HD 131399Ab, fica a cerca de 320 anos-luz da Terra, na direção da constelação do Centauro. Com cerca de 16 milhões de anos, é um dos mais jovens exoplanetas (planetas fora do Sistema Solar) descobertos até hoje. 

O novo planeta é gigante - estima-se que tenha quatro vezes a massa de Júpiter - e sua temperatura é de cerca de 580ºC. Ainda assim, é um dos menores e mais frios exoplanetas já observados diretamente.

"É um dos poucos exoplanetas que foi observado com imagens diretas e é o primeiro com essa interessante configuração dinâmica", disse um dos autores do estudo, Daniel Apai, da Universidade do Arizona.

"Durante metade da órbita do planeta, que dura cerca de 550 anos terrestres, as três estrelas são visíveis no céu. Duas delas têm luz mais fraca e estão bem próximas uma da outra. A terceira estrela, mais brilhante, fica mais afastada, mudando sua posição aparente em relação às outras duas ao longo do ano", disse outro dos autores do artigo, Kevin Wagner, estudante de doutorado que descobriu o novo planeta.

Wagner identificou o planeta entre centenas de outros candidatos a planetas e realizou as observações para verificar sua natureza.

Simulações. Embora ainda seja necessário fazer repetidas observações, em longo prazo, para determinar com precisão a trajetória do novo planeta entre suas estrelas, as observações feitas até agora e uma série de simulações já sugerem qual é o cenário.

Segundo as simulações, a estrela mais brilhante tem cerca de 80% mais massa que o Sol e  e as outras duas estrelas menores giram em sua órbita a uma distância 300 unidades astronômicas (a distância existente entre o Sol e a Terra). As duas estrelas menores também giram uma em torno da outra, separadas entre si por uma distância de 10 unidades astronômicas.

O planeta, por sua vez, gira em torno da estrela maior em uma órbita a uma distância de 80 unidades astronômicas. Os autores do estudo, no entanto, afirmam que há uma gama de cenários orbitais possíveis e para afirmar que o sistema realmente tem estabilidade em longo prazo será preciso esperar as observações planejadas.

"Se o planeta estivesse mais longe da estrela mais massiva, ele teria sido expelido para fora do sistema. Nossas simulações computacionais mostraram que esse tipo de órbita pode ser estável, mas, se algo for alterado só um pouco, ela pode se tornar instável muito rapidamente", disse Apai.

Os astrônomos têm interesse especial nos planetas em sistemas com múltiplas estrelas porque eles fornecem um exemplo para estudar como funciona o mecanismo de formação planetária nesses cenários mais extremos. Os pesquisadores afirmam que, embora pareçam exóticos para quem mora em um planeta na órbita de uma estrela solitária, como a Terra, os sistemas com múltiplas estrelas são tão comuns como o nosso.

"Não está claro como esse planeta terminou nessa órbita tão grande nesse sistema extremo e nós não podemos dizer ainda o que isso significa para ampliar nossa compreensão sobre os tipos de sistemas planetários. Mas a descoberta mostra que há mais variedade lá fora do que nós pensaríamos ser possível", disse Wagner. 


Mais conteúdo sobre:
AstronomiaExoplanetas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.